Por que Madoka Mágica é o estado da arte no mundo dos animes? Analisando o piloto.

Mar 18, 2018

Imagens

Acho que não há nada mais clichê no mundo dos animes japoneses do que aquela figura das garotas de cosplay com poderes mágicos (e muito glitter) lutando contra o mal e se divertido juntas. Essa é a essência por trás de um costume de um povo que parece venerar imagens fofinhas e divertidas, muitas delas presentes na puberdade, mas que remetem mais tarde aos valores mais arraigados no íntimo dos indivíduos adultos ainda com esperança nesse poder mágico de cada um de nós. Não é tanto pelo erotismo, mas pelo poder que o erotismo remete a cada um de nós, essa força vital do sexo e da vida, dos veneradores para as veneradas. Estamos falando aqui da própria luta pela existência.

Dentro desse mesmo universo, mas enxergando sob uma ótica mais adulta, pesada e levando a sério suas decisões, o roteiro de Gen Urobuchi enxerga no mundo das meninas mágicas uma possibilidade de uma história que envolve elementos de ficção científica e o misticismo. A nossa própria “alma”, se é que se pode chamá-la assim. A própria essência da vida é alimentada em Madoka Mágica sutilmente pela figura da mulher como a figura poderosa nesse mundo (e isso sem ser necessariamente feminicista; bravo!).

Os três primeiros episódios da série, de acordo com Urobuchi, possuem o objetivo de 1) apresentar este mundo e suas diferenças do gênero já consagrado, 2) apresentar o plot, que são as explicações sobre meninas mágicas e a existência de bruxas e 3) o conflito, sobre a decisão de Madoka em se tornar essa menina mágica ou não, e as consequências dessa decisão. Vamos analisar neste artigo tão somente o piloto da série, seguindo uma tradição iniciada por mim em ser influenciado por uma análise do youtuber digibro voltado para a série Steins;Gate.

Já é possível logo em seu início em ter ideia da qualidade do anime, tanto pelos seus elementos estéticos extremos e em seu roteiro. Pelos aspectos estéticos iremos dar uma olhada em alguns screenshots abaixo como além da equipe de animação ter uma qualidade invejável a visão estética de seu diretor, Akiyuki Shinbo, arrisca demais e acerta em praticamente tudo.

Iniciando com uma espécie de sonho atemporal onde a jovem Madoka Kaname, ao subir uma escadaria de maneira vulnerável, vislumbra uma garota que nunca viu (Homura Akemi) e ao seu lado uma criatura mágica (Kyubey). Madoka acorda em sua casa no primeiro dia. Entre esses dois momentos há a introdução com a música-tema, cuja letra já diz mais do que deveria sobre a série inteira e sua abordagem.

No início do sonho de Madoka vemos uma escadaria xadrez que é distorcida. O sonho todo é em tons de cinza, o que é importante para ressaltar o tom mais abstrato e distante do que será visto no anime, que preza pela paleta mais colorida, embora não necessariamente feliz.

Início do sonho é uma escadaria xadrez que se distorce

Madoka subindo escadaria preto e branco em seu sonho com sinal de saída em cima

Interessante notar que o corredor por onde ela passa no início lembra em muito os corredores da escola. Os mesmos corredores são vistos em detalhes quando Madoka acompanha Homura (bom, na verdade é o contrário o que ocorre, já que Homura é que toma a dianteira). Essas rimas temáticas e visuais acontecem o tempo todo na história, e aprendemos sempre alguma coisa por contraste.

Madoka passa por corredor em preto e branco no sonho que lembra os corredores da escola por onde Homura e ela caminharam

Como o sinal de saída na parede. Além dele ser vislumbrado três vezes no piloto, é importante notar que ele mostra um boneco se movendo para a esquerda, o que é contrário do clássico movimento da linguagem cinematográfica da esquerda para direita. É como se ele estivesse voltando no tempo ou revendo suas decisões para chegar até esse momento. Não pode-se dizer que isso por si só represente perigo, pois é uma saída com luminário verde, positivo.

Sinal de saída na parede

Após o sonho da Madoka cortamos para a introdução e a música-tema. Como havia falado, elas revelam demais, visualmente e na letra da música. Percebemo que é uma música alegre como qualquer anime de garotas mágicas, mas sua letra sugere um clima pesado, filosoficamente falando, onde se fala sobre, por exemplo, que ela irá se sacudir para mover adiante a escuridão arrebatadora. Com isso ela se pergunta se será capaz de ver o futuro perdido novamente. Toda a letra é de uma profundidade metafórica e até poética impressionantes para um “desenho de meninas”, o que revela que não estamos acompanhando um anime comum.

E nessa letra já consta claramente a alusão à viagens no tempo.

I won't forget the promises we exchanged 
I close my eyes to affirm it 
I will shake off the overwhelming darkness to move forward

When will I ever be able 
To see the lost future from here again?

Let's move forward in this world 
By shattering the overflowing shadows of anxiety again and again

Time now begins to tick away incessantly 
Let's open the closed door 
While carrying our unchanging feelings

My heart awakes in order to depict the future 
Even if I come to a halt on a tough road 
The beautiful blue sky always waits for me 
Therefore I'm not afraid 
I won't be disheartened anymore no matter what happens

My friends were there when I looked back 
They gave me a warm hug if they noticed

In the world where everything was distorted 
This only trustable place was my salvation

Our feelings will be stronger by sharing our joy and sorrow 
If my voice can reach you 
I'm sure miracle will happen

I won't forget the promises we exchanged 
I close my eyes to affirm it 
I will shake off the overwhelming darkness to move forward 
No matter how tall a wall there is 
I will definitely cross over it 
Pray for believing in tomorrow

While I was wandering in the collapsed world 
I came to you as if I was drawn to you

My heart awakes in order to depict the future 
Even if I come to a halt on a tough road 
The beautiful blue sky always waits for me 
Therefore I'm not afraid 
I won't be disheartened anymore no matter what happens

Always look forward to tomorrow

O mais determinante nisso é o que vemos durante a introdução. Há uma versão dupla de Madoka em uma bolha, e uma dessas versões sugere ser sua versão mágica. O importante aqui também é reparar não apenas na auto-erotização da heroína, mas como ela parece aceitar, com um sorriso, sua situação ou destino. Além de se aceitar, claro. Ela sela esse destino abraçando a si mesma.

Madoka abraçando sua versão mágica

Madoka e sua versão mágica em uma bolha; o tempo continua passando sem parar

Todos esses elementos fantásticos são apresentados antes mesmo de Madoka acordar em sua casa e se dirigir com sua mãe para o banheiro gigantesco de sua casa de pessoas de posse e iluminadas, mas ainda assim sem soar opulenta, mas apenas a vida perfeita. O pai cuida da casa e do jardim, e a mãe dos negócios em uma empresa. O irmão caçula de Madoka é simplesmente adorável. Tudo é perfeito na vida da Srta Kamane.

Mãe e filha no gigantesco banheiro brilhante

Casa de Madoka com iluminação ao lado, rica sem soar imponente

Enquanto ela acorda de manhã temos uma pequena dica, que irá se soltar recorrente, da natureza dúbia de Madoka, ou de suas múltiplas versões na realidade que lhe é apresentada. Vemos no reflexo do espelho quatro Madokas sincronizadas, olhando para a mesma direção, o que parece referir mais uma rima visual poderosa sobre o plot como um todo. O espectador de primeira viagem do piloto não tem como saber disso, mas instintivamente ele irá notar que esta é mais uma informação sobre aquele universo que está sendo desvendado aos poucos no seu primeiro episódio.

Múltiplas Madokas no espelho do banheiro

Além disso, o uso da luz é outro detalhe recorrente neste universo. É como se quem estivesse a observar esta realidade a visse sob uma ótica extremamente iluminada e positiva, e é preciso lembrar que a própria luz já contém a antiga dubiedade entre fé e conhecimento (Lúcifer).

Escola iluminada e transparente

Um pequeno parênteses. Até agora vimos diferentes estilos de desenho se moldando aos conceitos que “Madoka Mágica” pretende apresentar. O que particularmente mais gosto fala sobre a subjetividade do ser, ou do olhar, como quando a resolução se altera radicalmente em uma cena, mesmo que a sua proximidade seja a mesma. Observe quando Madoka e sua melhor amiga Sayaka Miki se abraçam e brincam. Repare como as duas amigas são vistas em uma resolução mais basal, simplificada, enquanto a amiga mais séria permanece na resolução original.

Resoluções diferentes e postura separam Madoka e sua amiga da terceira

(Ao mesmo tempo os detalhes da escola são vistos sob a ótica de uma garota. A professora delas faz um sermão inicial sobre como fritar ovos, pois seu último namorado a criticou por tê-lo feito “de maneira errada”.)

Professora descontente com julgamento do namorado

Após Homura ser apresentada e tomar as rédeas da situação que Madoka ainda está tentando entender (como ela acabou de conhecer uma menina que tinha visto até então apenas em seu sonho desta noite?), é chegada uma hora primordial para o “longa”, e que não parece em uma primeira visita, mas se você reparar nos detalhes dramáticos esteticamente e metaforicamente colocados sobre aquela ponte, onde Madoka deve ou não atravessar, há uma mensagem vital para ambas, e ainda que elas estejam apenas se conhecendo pela primeira vez, Madoka muda sua visão pela pergunta e logo sua sugestão de vida:

Homura e Madoka separadas na ponte; a pergunta fatal

Deve continuar sendo quem é, Madoka Kamane

E Madoka, vale lembrar, precisa tomar essa decisão sozinha (como vemos no último quadro).

Madoka sozinha no corredor que divide sua vida pela pergunta de Homura

Sobre metalinguagem e detalhes que enriquecem uma obra

“Madoka Mágica” fala sobre metalinguagem todo o tempo porque, assim como Rick & Morty, a própria história lida com a natureza da realidade. Então não se trata apenas de uma brincadeira inocente. Quando Madoka diz às suas amigas que viu Homura no sonho dessa noite, apesar de não se lembrar de nenhum outro momento da menina anterior a esse, ela recebe a reação mais do que esperada:

Metalinguagem de estar em um anime

Sim, ela age como se estivesse em um anime! E o espectador assistindo ao piloto entende a conexão entre realidade e desenho. Principalmente depois, na cena imediatamente posterior, onde elas vão na loja de música – e a trilha sonora da série é aburdamente bem orquestrada em torno do existencialismo como algo mais dramático sempre que a luta contra as bruxas. Madoka está ouvindo animada uma música, que, percebemos depois, é sua música-tema!

Madoka ouvindo sua própria trilha

E por falar em metalinguagem, somos convidados a voltar para o sonho com o sinal de saída voltando em cena, que nos remete à própria natureza do que é real ou sonho. Se formos levar a sério essa história, o sonho de Madoka é relevante, pois algo falta ser explicado. O mistério inicial se mantém durante todo o episódio e, vamos aprender, por muito mais tempo. É o suspense inicial que direciona a série para seu surpreendente final (que mesmo que não saibamos qual é, entendemos que ele se localiza no futuro, pela letra da música-tema e pelo jogo com viagem no tempo do sinal de saída invertido).

Sinal de saída visto no começo

Mas se até aí nada fugiria muito do normal do que esperar de um anime de meninas mágicas, é quando a primeira bruxa é revelada que a estética dá um salto arriscado em direção ou à indiferença ou adoração do espectador, que se estiver atento às brincadeiras de metalinguagem, vai entender que usar elementos reais para caracterizar uma bruxa é o ponto mais alto dessa premissa na série. Afinal de contas, nós, espectadores, estamos no mundo real!

Detalhes da bruxa com os elementos que a constituem

Detalhes espinhosos da bruxa

E isso assusta um pouco, não? Como os detalhes da primeira aparicão de Kyubey, no meio do episódio, em cima de algo cheio de detalhes pontiagudos. Os traços da sombra de Kyubey revelam o caráter dúbio deste personagem, que por ser fofinho soa inofensivo, mas por outro lado, ao ser atacado por Homura, talvez tenha seus motivos para estar sendo perseguido. Essa imagem sintetiza esse sentimento, e é colocada acertadamente na transição entre as duas metades do piloto:

Detalhes espinhosos de Kyubey

E é preciso lembrar que, assim como Kyubey se cerca de “detalhes espinhosos” nessa transição, as meninas vão sendo cercadas cada vez mais dos detalhes da bruxa. E quando digo “sendo cercadas” digo visualmente, e de todas as maneiras. Temos o efeito de fade…

Meninas cercadas pela bruxa em transição de fade

O efeito das runas, se colocando à frente das meninas…

Meninas cercadas pela bruxa pelos dizeres

Aos poucos os espinhos também a cercam.

Meninas cercadas pela bruxa com correntes por fora

E a fotografia, ou textura, muda entre elas e todos os elementos em volta.

Meninas cercadas pela bruxa e separadas pela paleta, mas com estética alterada

Até que finalmente elas estão tão cercadas que um dos elementos que se mexem em volta delas as cobrem de longe. No processo elas ficam cada vez menores.

Meninas cercadas pela bruxa com elementos da bruxa à frente

E quando vamos ver o plano geral, elas estão minúsculas, no meio de uma bizarra dança.

Meninas cercadas pela bruxa

E o que mais favorece o aspecto dúbio de Kyubey é seu momento final, onde, apesar de cheio de luz, ele possui uma expressão não-humana (no sentido de empatia) e diz a última frase, cheia de significados, para aquelas garotas apavoradas.

Kyubey oferece o contrato de garotas mágicas, última fala do piloto

“Madoka Mágica” é muito mais do que seu piloto. Mas a questão é que, apenas olhando o piloto, há muito o que extrair deste anime.

Wanderley Caloni, 2018-03-18. Puella Magi Madoka Magica (2011). Dirigido por Akiyuki Shinbo. Escrito por Gen Urobuchi (personagens por Ume Aoki). Com Aoi Yûki (Madoka Kaname), Chiwa Saitô (Homura), Emiri Kato (Kyubey) IMDB.