Madoka Magica

Apr 14, 2014

Imagens

A revisita a este animê que para mim ainda é meu favorito – pela originalidade e pela fuga do lugar-comum e dos roteiros fáceis que a maioria das adaptações dos quadrinhos japoneses são submetidos – foi feita em apenas uma noite. Mais de quatro horas depois posso reafirmar com convicção: é uma obra ousada para seu formato tanto em história quanto na direção/edição/arte. Desafia o espectador a esquecer os detalhes centrais de uma história que vai se abrindo muito lentamente, e sua força é sentida exatamente por esse cuidado em cada detalhe.

Madoka Mágica é um trabalho caricatual que segue à risca a cartilha de heroinas de cosplay (ou, diria, se usa desse artifício como metalinguagem e crítica ao gênero), mas, mais do que isso, segue um tratamento estilizado e inspirado levemente no surrealismo, mas que empurra a animação para além das histórias de luta ao lidar com conceitos complexos como auto-sacrifício, religião, viagens no tempo, destino e física teórica (além de vida extraterrena) sem perder seu ritmo com história secundárias bobinhas para fazer rir/ganhar tempo. É uma fantasia com um pé na ciência, um pé na filosofia e outro pé na arte. Esse tripé mantém a câmera posicionada nos lugares mais inusitados para capturar cada quadro como se esse fosse uma obra de arte única a resumir aquele momento através de sutis e significativos movimentos.

E há vários momentos que merecem ser congelados para nossa apreciação.

A história gira em torno de Madoka Kaname, uma garota comum que encontra um bicho estranho e mágico que revela que existem garotas mágicas que lutam contra bruxas e salvam pessoas de suicídios. Na verdade, revela mais: ela e sua amiga, Sayaka Miki, podem se tornar garotas mágicas também, e a recompensa por este feito heróico é terem um desejo — qualquer desejo — realizado pelo tal bicho mágico.

O curioso da série é que ela não tem pressa em realizar o que 90% das produções semelhantes ocidentais fariam: um grupo de garotas lutando contra o mal a la Meninas Superpoderosas. No fundo, o “mal” aqui não está materializado e nem tem desejo de fúria. Ele é um conceito, e relativo, dependendo do ponto de vista. Sequer há emoções em jogo. Na verdade, é mais profundo que isso: a emoção aqui é usada de uma maneira completamente diferente. Uma Meninas Superpoderosas para gente grande.

Mas além da empolgante história o que cativa mesmo o espectador é a qualidade narrativa criada não apenas a partir dos sensacionais traços dos criadores, mas de uma invejável e coesa trilha sonora (Yuki Kajiura) e uma fotografia de cair o queixo (Shinichiro Eto). Tudo isso, com a edição de Rie Matsuhara, combina em uma experiência sensorial cada vez mais fácil de ser encontrada em séres de TV ambiciosas e menos nos cinemas comerciais.

Wanderley Caloni, 2014-04-14. Madoka Magica. Maho Shojo Madoka Magica (Japan, 2011). Dirigido por Tomoyuki Itamura, Yukihiro Miyamoto, Akiyuki Shinbo, Masahiro Mukai, Yuki Yase, Toshiaki Kidokoro, Shinichi Omata. Escrito por Gen Urobuchi, Alex Von David. Com Christine Marie Cabanos, Emiri Katou, Cassandra Morris, Chiwa Saito, Cristina Valenzuela, Aoi Yuki, Eri Kitamura, Sarah Anne Williams, Shelby Lindley. IMDB.