Madoka Magica

A revisita a este animê que para mim ainda é meu favorito – pela originalidade e pela fuga do lugar-comum e dos roteiros fáceis que a maioria das adaptações dos quadrinhos japoneses são submetidos – foi feita em apenas uma noite. Mais de quatro horas depois posso reafirmar com convicção: é uma obra ousada para seu formato tanto em história quanto na direção/edição/arte. Desafia o espectador a esquecer os detalhes centrais de uma história que vai se abrindo muito lentamente, e sua força é sentida exatamente por esse cuidado em cada detalhe.

Madoka Mágica é um trabalho caricatual que segue à risca a cartilha de heroinas de cosplay (ou, diria, se usa desse artifício como metalinguagem e crítica ao gênero), mas, mais do que isso, segue um tratamento estilizado e inspirado levemente no surrealismo, mas que empurra a animação para além das histórias de luta ao lidar com conceitos complexos como auto-sacrifício, religião, viagens no tempo, destino e física teórica (além de vida extraterrena) sem perder seu ritmo com história secundárias bobinhas para fazer rir/ganhar tempo. É uma fantasia com um pé na ciência, um pé na filosofia e outro pé na arte. Esse tripé mantém a câmera posicionada nos lugares mais inusitados para capturar cada quadro como se esse fosse uma obra de arte única a resumir aquele momento através de sutis e significativos movimentos.

E há vários momentos que merecem ser congelados para nossa apreciação.

A história gira em torno de Madoka Kaname, uma garota comum que encontra um bicho estranho e mágico que revela que existem garotas mágicas que lutam contra bruxas e salvam pessoas de suicídios. Na verdade, revela mais: ela e sua amiga, Sayaka Miki, podem se tornar garotas mágicas também, e a recompensa por este feito heróico é terem um desejo — qualquer desejo — realizado pelo tal bicho mágico.

O curioso da série é que ela não tem pressa em realizar o que 90% das produções semelhantes ocidentais fariam: um grupo de garotas lutando contra o mal a la Meninas Superpoderosas. No fundo, o “mal” aqui não está materializado e nem tem desejo de fúria. Ele é um conceito, e relativo, dependendo do ponto de vista. Sequer há emoções em jogo. Na verdade, é mais profundo que isso: a emoção aqui é usada de uma maneira completamente diferente. Uma Meninas Superpoderosas para gente grande.

Mas além da empolgante história o que cativa mesmo o espectador é a qualidade narrativa criada não apenas a partir dos sensacionais traços dos criadores, mas de uma invejável e coesa trilha sonora (Yuki Kajiura) e uma fotografia de cair o queixo (Shinichiro Eto). Tudo isso, com a edição de Rie Matsuhara, combina em uma experiência sensorial cada vez mais fácil de ser encontrada em séres de TV ambiciosas e menos nos cinemas comerciais.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-04-14 imdb