Madrugada dos Mortos

Queria comparar algum filme de zumbis que não fosse de George Romero ou comédia (Zumbilândia, Meu Namorado é um Zumbi) e nem tão dramático/ação (World War Z), mas que carregasse aqueles símbolos do velho Cinema de Romero no melhor estilo A Noite dos Mortos-Vivos. E eis que finalmente vi esse Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder (do interessante Sucker Punch, do sensacional Watchmen e do infelizmente medíocre Homem de Aço).

Com uma fotografia saturada, cenas ágeis, suspense com trilha sonora e sons de arrepiar os ouvidos, o apocalipse zumbi de Snyder aproveita a mitologia e o universo de Romero e a própria atmosfera, o que não é nenhuma surpresa, pois se trata de um remake do filme dos anos 70. Curiosamente, tanto o shopping (Terra dos Mortos) quanto a ilha (A Ilha dos Mortos) foram reaproveitados por Romero em trabalhos posteriores.

Usando uma introdução espetacular em que a enfermeira Ana (Sarah Polley) vê sua filha e seu marido estranhamente possuídos por uma doença semelhante a raiva, o filme mostra rapidamente o que o mundo se torna em uma sequência que enxergamos o carro inteiro de Ana e a atmosfera de sua vizinhança. Usando o mesmo esquema durante todo o filme, as sequências de ação são eficazes mesmo parecendo uma produção de baixo orçamento, o que deixa no chinelo trabalhos trash cômicos como Sharknado (apesar de eu gostar dos tubarões voadores). O ritmo do filme serve tanto para esconder esses defeitos como para esconder a profundidade da narrativa, já que os personagens são, claro, unidimensionais, mas representam justamente seres humanos genéricos. Porém, mesmo assim, possuem mais profundidade que a grande maioria dos dramalhões Hollywoodianos.

O melhor que há em Madrugada dos Mortos é sua despretensão e suas brincadeiras com metalinguagem. Quando conhecemos o destino do suposto vilão, por exemplo, é ele melhor que diz: “era de se esperar”. Saber brincar com o próprio material é uma excelente forma de contar histórias que não devem ser levadas a sério. É curioso, portanto, como séries como The Walking Dead conseguem tantas temporadas com uma base dramática rala que usa zumbis, seres mitológicos cômicos, como o perigo constante. Faça-me o favor: os bichinhos sequer correm! Ponto a mais para Snyder.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-02-14 imdb