Mãe!

2017/09/15

Darren Aronofsky é um diretor obcecado com perfeccionismo, gnosticismo, auto-superação e talento. E ele leva isso sério demais em “Mãe!”. Tão sério que a dupla-camada (ao menos) no filme é bem escondida, mas vai parecer óbvia depois que você termina. E de uma forma ou de outra, o filme irá revelar mais sobre o espectador do que sobre as opiniões de seu criador. Trocadilho intencional e hermético. Já escrevi o texto sobre o filme sem spoilers para o CinemAqui, e este é meu exercício COM SPOILERS. Isso é porque quero exercitar minha capacidade de interpretação do filme junto a vocês. Qualquer teoria maluca a mais por favor entrar em contato.

A tradução bíblica da realidade em outra metáfora.

Sim, esta é a visão bíblica e gnóstica do mundo como ele é. Javier Bardem é O Criador, Deus ou um poeta (ou os dois), e Jennifer Lawrence é Ela, a Mãe (!), ou, mais óbvio ainda, a Mãe-Natureza.

E essa é sua casa.

Quando chegam Adão (Ed Harris) e Eva (Michelle Pfeiffer) ao paraíso, eles são bem recebidos, embora com um certo receio da Mãe. A fascinação de ambos (mais de Eva) do cristal proibido é tanto que eles acabam cometendo um pecado mortal, o que obriga Deus a fechar completamente a entrada para aquele mundo. Após isso fazem sexo sem nenhum pudor, para a consternação da Mãe.

Depois chegam seus filhos, que brigam por atenção de seus pais. Na fúria máxima, um assassina o outro. Caim e Abel é o nome deles, e estão ambos amaldiçoados. Eles e suas proles. A história da humanidade começa com um assassinato em sua primeira família. A dor da perda ecoa nos choros dos presentes no funeral simbólico, feito na própria casa de Mãe.

A história não termina aí. Está apenas começando. A presença de sangue em Sua casa revela uma podridão que vai se alastrando até os porões, no inferno. É onde está a caldeira, que é assustadora. A humanidade não diminui, mas aumenta de pessoas. O sucesso da palavra de Deus se alastra e pessoas vêm de muito longe para dar seu testemunho.

Mãe nunca consegue ficar a sós com Deus em paz. Esses humanos tomam sua casa como se fossem deles. Pegam pedaços de coisas para provar que estiveram aqui ou deixar sua marca. Não respeitam nem quando Mãe está grávida. Pelo contrário. Aguardam fervorosamente pela chegada do filho do Criador, e quando ele chega, lhe presenteiam com roupas limpas (mirra) e frutas em um cesto. Mãe não quer entregar seu filho para Deus carregar, mas ele aguarda, pacientemente. Ele nunca dorme. Está sempre agitado.

E o filho, como deve ser, é sacrificado. E comido. Literalmente. E as pessoas esperam o seu perdão. Uma cena catártica que até não-religiosos conseguem compreender o impacto de Jesus para os cristãos. Uma vez que o filho de Mãe é perdido a humanidade parece que tem sangue nos olhos.

E começam os ataques, a escassez de comida, a guerra, os assassinatos. Miséria, fome, pestilência. Profetas. Tudo se mistura em um misto de crendices e fé em algo que os conforte, nas palavras doces, perfeitas, do Criador para elas.

Eventualmente tudo se esvai. A Mãe não suporta mais. A única coisa que resta é seu amor para com o Criador. Amor este que serve de chama para uma nova Mãe. Um novo universo. Uma nova realidade.

★★★★★ Mother!. USA, 2017. Direction: Darren Aronofsky. Script: Darren Aronofsky. Cast: Jennifer Lawrence (Mother). Javier Bardem (Him). Ed Harris (Man). Michelle Pfeiffer (Woman). Brian Gleeson (Younger Brother). Domhnall Gleeson (Oldest Son). Jovan Adepo (Cupbearer). Amanda Chiu (Damsel). Patricia Summersett (Consoler). Edition: Andrew Weisblum. Cinematography: Matthew Libatique. Soundtrack: Jóhann Jóhannsson. Runtime: 121. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Drama. Release: 19 September 2017 (Sao Paulo). Category: movies Tags: cabine

Share on: Facebook | Twitter | Google