Magia ao Luar

Woody Allen é um contador de histórias mediano, pois ele consegue utilizar (ou manipular) os personagens dos seus filmes (que dirige e escreve) ao seu bel prazer. Seu objetivo não é criar uma trama muito complexa, mas apenas discutir os temas recorrentes de sua cinegrafia mais recente. Dito isto, o que pode talvez elucidar porque há muitas pessoas que não gostam dos seus filmes, por outro lado essa ambição de sempre explorar ao máximo as premissas de seu raciocínio sobre questões além-vida (e a própria vida) são fascinantes per se, e na maioria das vezes não precisaria mais trama do que aparece em seus filmes para gerar uma boa discussão. Seus diálogos, pode-se dizer, são um monólogo constante sobre filosofia. Só isso já torna não apenas seus trabalhos altamente “assistíveis”, mas, em geral, muito acima da média de Hollywood (que busca justamente o oposto: quanto menos o espectador precisar pensar, melhor).

Entre os temas constantes do cineasta, a questão do sobrenatural é uma delas, pois a sua presença (ou ausência) circunda completamente a noção individual de significado em cada uma de nossas vidas. Em “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” há bastante disso, mas é possível ver espalhado em outros trabalhos, como “Tudo Pode Dar Certo”. Já aqui, em “Magia ao Luar”, a época que estamos facilita a exploração de um tema um pouco mais… preciso: as médiuns que encantam milionários.

Estamos na Europa da década de 20, e um mágico que se traveste de oriental, Stanley (Colin Firth), é convidado por seu amigo (Simon McBurney) a desmascarar a bela e completamente inconvincente Sophie (Emma Stone). Stanley, um mágico de sucesso e viajado, está acostumado a ver os truques que essas pessoas utilizam para seduzir velhos ricos em busca de um pouco de amparo em sua futura (e breve) pós-vida. A alta classe onde predominam, portanto, é um prato cheio para que charlatões tentem a sorte grande exibindo pequenos truques que tentam angariar fundos para, assim, se sustentarem sem precisar trabalhar. A única diferença disso e das religiões-caça-níqueis recentes é que, enquanto os médiuns da época focam em um pote de ouro, as religiões obtém seu lucro da esperança de milhões de miseráveis.

É, portanto, muito divertido e irritante ao mesmo tempo acompanhar a alta aristocracia daquela época, sempre extremamente desinteressante e sem conteúdo nenhum. As pessoas de “Magia ao Luar”, sejam bem ou má intencionadas, são rasas e muitas vezes arrogantes. Colin Firth exibe o seu tom aristocrático ao máximo, contrastando de maneira magnífica com outros personagens seus muito mais carismáticos. Já Emma Stone é Emma Stone em seu modo “fascinável” 100% do tempo, o que se mostra levemente acertado com a proposta do projeto.

Se a primeira metade do filme é apenas aceitável para o bem da narrativa e dos temas que Allen irá em breve – esperamos – colocar na mesa, seu terceiro ato é intenso em seus diálogos, e cuja profundidade não consegue ser alcançada ao máximo graças a uma trilha sonora equivocada, preguiçosa, que usa jazz para comentar praticamente qualquer cena, seja esta cômica ou trágica. Não fosse isso, as questões levantadas por Stanley constituiriam um dos melhores momentos da cinegrafia do autor.

Mas não seja por isso. A questão sobre vida após morte, racionalidade ou sentimentalismo, ainda vale a pena nesse filme. Não está cercado de tanto conteúdo inteligente, ou até pessoas inteligentes, como seria de se esperar, mas nós sabemos que é Allen falando conosco. Apesar de todo o charme de Firth ilustrando seus pensamentos.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-30. Magia ao Luar. Magic in the Moonlight (USA, 2014). Dirigido por Woody Allen. Escrito por Woody Allen. Com Colin Firth, Antonia Clarke, Natasha Andrews, Valérie Beaulieu, Peter Wollasch, Jürgen Zwingel, Wolfgang Pissors, Sébastien Siroux, Simon McBurney. imdb