Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo

Jul 14, 2016

Imagens

Este é um filme que se apaixona por várias coisas ao mesmo tempo. Em algumas delas há sempre o risco de ter ido longe demais. Em outras é o praticamente essencial para a história que está sendo contada.

Este é um filme que se apaixona pela técnica da “Câmera GoPro”, a que mostra o ponto de vista dos objetos manipulados pelos personagens como uma corda de pular ou uma vassoura (usada tanto pela série Breaking Bad que ficou sua marca registrada). A forma de produzir esse efeito é colocando uma dessas micro-câmeras de esportistas radicais nesses objetos e filmando por essa perspectiva (a uma resolução absurdamente proibitiva para tempos passados, daí a novidade hoje).

Este é um filme que se apaixona pela técnica da câmera ultralenta, aquela que vai desacelerando aos poucos até vermos pingos d’água flutuando no ar. Aficionados por ela temos aos montes, hoje, mas é sempre bom lembrar de Guy Ritchie e suas partículas em suspensão de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e a série Sherlock Holmes protagonizada por Robert Downey Jr.

Este é um filme que se apaixona por idolatrar mitos, e faz de tudo para transformar seu protagonista em um semi-deus, torturado pela angústia psicológica, massacrando seres humanos aleatoriamente nos ringues da vida. Seu semblante está sempre olhando para a frente, e ele encara sua vida sempre de frente, exceto pelo seu pai, o seu José “Zeus” (um Jackson Antunes muito, muito eficiente), que aleatoriamente drena todas as esperanças e a energia de seu filho, quase que o castigando por querer ser alguém na vida, ou por querer encontrar a si próprio quando o pai já desistiu.

Este é um filme que se apaixona pela mania de popularizar celebridades, e apesar de investir na figura certeira do José Loreto para viver José Aldo com um foco impressionante, acaba elencando figuras que mais atrapalham do que ajudam, como Cleo Pires (que apesar dos diálogos ágeis vive uma estrelinha global no cinemas e não convence até o final) e o comediante de stand-up Rafinha Bastos, que surpreendentemente combina mais do que a personagem de Pires. Em compensação, o filme utiliza um elenco secundário de primeira qualidade, desses que só o cinema brasileiro consegue fornecer facilmente. E quem diria que Claudia Ohana seria uma mãe que esmagada pelo marido.

Este é também um filme que se apaixona pelo seu próprio roteiro, que utiliza um fiapo de história – José Aldo se tornou conhecido ao começar treinar no Rio, tem um passado de emoções mistas a respeito de sua família em Manaus – e ambiciosamente desafia o espectador a descobrir o personagem misterioso, o alter-ego de Aldo, sem dar maiores explicações até a metade da projeção (com exceção de algumas dicas muito pertinentes, como a cena da perseguição de carro).

Mais Forte que o Mundo é um trabalho intimista sobre um dos maiores lutadores de UFC que já existiu. Ele se distorce para chamar a atenção do espectador, fã ou não do esporte, mostrando freneticamente uma história de anos e que começa na vida miserável de uma família de Manaus e termina nos céus do Monte Olimpo, onde apenas os mais fortes e determinados chegam. É uma ode à perseverança, física e psicológica, para quem tinha a primeira, mas lutava constantemente com a segunda. É um filme que ousa não tentar explicar muito os conflitos internos de seu herói, mas que pauta toda sua história justamente nesse fato. Usando uma fotografia estilizada, uma direção de arte rica e incisiva (principalmente na primeira parte, na pobreza de Manaus), com uma edição primorosa, senão exagerada, “Mais Forte” é sinal tanto do seu público-alvo quanto do cinema ágil, um misto de ação e drama ao mesmo tempo, salpicado com a ótima comédia nacional. Uma boa dose de adrenalina e pura testosterona audiovisual.

Wanderley Caloni, 2016-07-14. Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo. Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo (Brazil, 2016). Dirigido por Afonso Poyart. Escrito por Afonso Poyart, Marcelo Aleixo Machado. Com Cleo Pires, Milhem Cortaz, Romulo Neto, Claudia Ohana, José Loreto, Paloma Bernardi, Robson Nunes, Felipe Titto, Jackson Antunes. IMDB.