Making a Murderer S02

Oct 31, 2018

Imagens

“Terminando quando o “filme” atinge o tempo presente, Making a Murderer é um projeto praticamente ainda em andamento, pois demonstra que há ainda pontas soltas e, pior, algo de podre no ar.” Esse foi meu último parágrafo sobre a primeira temporada de uma série que influencia a vida real. Sim, pois a segunda temporada é praticamente impulsionada pela influência documentário na vida de Steven Avery e familiares.

E o resultado é que surge uma nova protagonista, a advogada Kathleen Zellner, famosa por absolver 17 condenados injustamente pela justiça americana. Zellner trabalha em modelo pro bono, o que quer dizer que seus esforços são milionários, mas estão à disposição para bater de frente com a justiça estatal. Boa sorte com isso.

A segunda temporada da série começa com a própria influência que a série causou na opinião pública e na resposta do promotor do caso, Ken Kratz. E ela segue com o caso de Zellner virando uma investigação criminal 10 anos depois dos acontecimentos que vimos na temporada anterior. O bônus é ver o quanto a ciência é capaz de descobrir sobre provas circunstanciais e como isso serve para desmascarar provas falsas colocadas por desafetos do réu. Para quem é fã de ciência vai ficar particularmente empolgado com um novo detector de mentiras que escaneia as memórias do cérebro e com as microscopias que revelam quais materiais existem em projéteis e em regiões contaminadas com DNA. Mais empolgante ainda: de onde poderia vir os traços de DNA (naturalmente ou implantados).

Além disso, a série faz um serviço muito bom em harmonizar o lado técnico com a espera angustiante da família Avery, seus conflitos e dores. O lado humano de Making a Murderer tenta fazer as pazes com todos os lados pelo bem da verdade, mas ele tem a dignidade de nos demonstrar como não é fácil para os familiares da vítima aceitar desencavar esse assunto novamente e como do ponto de vista deles é doloroso ter que fazer isso.

Por outro lado a série faz questão de sempre no final dos episódios listar todos os que não quiseram conversar com os produtores do filme, e obviamente você já deve saber quem são apenas pelo teor da história. E esse é o outro lado da moeda que torna a série um exemplo de documentário, pois consegue tocar na ferida pela causa mais nobre de todas: a verdade objetiva acima de tudo, custe o que custar, doe a quem doer.

E nesse sentido as constantes tentativas do Estado em obstruir o seguimento da justiça se torna não apenas revoltante, mas preocupante. É um alerta para toda a sociedade americana o que está acontecendo nesse caso, onde a tendência é tão parcial em favor do poder público que a situação beira o patético, mas com certeza já passou da linha do justificável.

A questão do julgamento já chegou em um nível tão profundo que talvez seja necessário fazer um documentário sobre o documentário para entender qual o nível de poder de documentaristas, e por que isso seria prejudicial para a busca da verdade? Isso é relevante na medida em que entendemos que toda a mídia vai sendo manipulada aos poucos, de contra o réu para contra o Estado, se voltando lentamente de acordo com a vontade de seus espectadores. Como a própria nova advogada do caso, Kathleen Zellner comentou, é fascinante estar vivendo isso.

Wanderley Caloni, 2018-10-31. Making a Murderer. Making a Murderer (USA, 2015). Dirigido por Moira Demos, Laura Ricciardi. Escrito por Moira Demos, Laura Ricciardi. Com Steven Avery. Documentário, política, justiça, netflix. IMDB.