Manchester À Beira-Mar
Wanderley Caloni, 2017-02-13

Este é um filme que se constrói inteiro na performance do seu ator principal, Casey Affleck, que estabelece um protagonista (Lee Chandler) traumatizado com um realismo que só consegue ser sentido no seu último momento na companhia de sua ex-esposa (uma Michelle Williams igualmente competente e com muito menos tempo de tela). Também é um filme que te leva fácil, pois tem uma história fácil para contar. São as entrelinhas que interessam, e se fossem um pouquinho mais grossas dariam um filmaço. Mas o filme prefere ser ele mesmo e se tornar com isso impecável.

Essas entrelinhas em torno da historinha são sentidas em todo momento através dos seus personagens secundários. É aquele momento incômodo no corredor quando Lee recebe a notícia que seu irmão morreu e ele não estava com a doutora de praxe (ela estava de licença, pois engravidou de gêmeas, referência ao trauma do próprio Lee). Também é aquele momento em que, diante de seu testamento, Lee recusa aceitar o pesadelo que terá sendo o tutor de seu sobrinho. E, com certeza, é aquele momento em que ele acompanha a esposa sendo levada para a ambulância, quando as rodas de sua maca insistem em travar. Esse pequeno detalhe é o melhor exemplo de como o diretor Kenneth Lonergan consegue extrair o incômodo de todas essas situações sem apelar para o dramalhão, preferindo abusar dos atos falhos das pessoas em torno de Lee Chandler.

Não precisamos nem que nos seja dito que naquela cidadezinha próxima de Boston todos conhecem todo mundo, e todos conhecem principalmente as tragédias dos seus vizinhos, parentes, conhecidos. Isso inclui o que aconteceu com Lee e sua família, mas cuja revelação está longe de ser tão magnética quanto esses pequenos detalhes de seu retorno à vila onde tudo aconteceu.

A atuação de Casey Affleck é extremamente importante porque ele não pode trair o filme e entregar uma performance “over”. Isso quer dizer que, mérito de quem seja, suas costas levemente curvadas, sua cabeça levemente pendurada e sua voz ligeiramente rouca e aparente incapaz de falar mais alto que um sussurro são parte integrante desse estudo de personagem fascinante, a atuação perfeitamente oposta vista em Nebraska (e ambas perfeitas). E é fascinante porque o universo se dobra diante da estranheza de nós humanos diante da morte, essa companheira e seguidora eterna. Quando acontece, todos ao redor mudam. Às vezes para sempre.

Contada através de músicas que evocam ao mesmo tempo sentimentos perenes, cerimônia e de certa forma a fragilidade da própria vida, Manchester By The Sea é uma ode à história comum e que empolga através da repetição. Vemos o sobrinho de Lee em suas investidas sexuais e o incômodo do próprio Lee em ter que interagir com as pessoas. Ele tenta dizer “obrigado” como uma forma de pontuar a interação, já que este homem esta obviamente quebrado por dentro, não sabe como fazer para se comunicar.

E o filme tampouco tenta facilitar para ele. Escrito também por Kenneth Lonergan, ele parece se divertir com a mesmice que impera na história, mas e ao mesmo tempo a avança. É uma maneira criativa de conseguir atrelar a narrativa em um protagonista cujo tempo parou parece que por toda vida.

★★★★☆ Manchester by the Sea. USA. 2016. Direção: Kenneth Lonergan. Roteiro: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck (Lee Chandler), Ben O'Brien (Young Patrick), Kyle Chandler (Joe Chandler), Richard Donelly (Mr. Martinez), Virginia Loring Cooke (Mrs. Groom), Quincy Tyler Bernstine (Marianne), Missy Yager (Mrs. Olsen), Stephen Henderson (Mr. Emery), Ben Hanson (Lenny - the bartender). Edição: Jennifer Lame. Fotografia: Jody Lee Lipes. Trilha Sonora: Lesley Barber. Duração: 137. Aspecto: 1.85 : 1. Drama. #torrent #oscar2017