Manhattan

A fotografia e a música de Manhattan fazem todo o filme parecer uma poesia cinematográfica espontânea, quase uma vida alternativa dentro das telas, especificamente dentro daquela tela larga e magistralmente usada por Woody Allen e sua equipe para torná-la mágica independente da história que irá ser contada. A própria história começa com inúmeras tentativas de Isaac (Allen) iniciar seu livro com uma síntese sobre Nova Iorque e sua decadência cultural que, ainda que inevitável, consegue nos fascinar.

A partir daí conhecemos sua nova (recente) e nova (jovem) namorada Tracy (a bela Mariel Hemingway) em um encontro com seu amigo Yale (Michael Murphy) e sua esposa Emily (Anne Byrne Hoffman). Em um segundo momento (aparentemente já no dia seguinte) encontramos o mesmo Yale e sua amante Mary (Diane Keaton), que de início se torna insuportável para Isaac, mas que aos poucos vira seu interesse romântico “maduro”.

Onde caímos inevitavelmente no primeiro tema de Manhattan: as inexoráveis mudanças do tempo e o que ele faz com as pessoas. A visão de Isaac do que seu relacionamento com a jovem Tracy é algo passageiro na vida de ambos e que, no caso dela, apenas um “desvio” do seu rumo natural na vida, ou seja, conhecer pessoas de sua idade. Essa visão, embora tecnicamente madura, esconde um caráter egoísta e duro, provavelmente endurecido justamente pela passagem dos anos com as duas ex-esposas de Isaac, sendo que a última (Meryl Streep) o largou por uma mulher.

Onde caímos inevitavelmente no segundo tema de Manhattan: relacionamentos não são simples. Muitas vezes nossas expectativas se adaptam à situação, como o que ocorre no triângulo amoroso com Mary em um primeiro momento. Outras vezes não adianta qual seja a decisão racional, ela não será levada em conta, que é o que ocorre no segundo momento. Da mesma forma, o arco fechado em torno de uma decisão importante na vida de Tracy bate novamente na mesma tecla do egoísmo humano, que Allen insiste em criticar e curiosamente é como ator o protagonista dos diálogos mais repulsivos.

Ainda assim, com essa visão pessimista da vida (e da morte), Manhattan se beneficia da mesma passagem do tempo que no início é a cortina que se abre para a cidade. E se há um terceiro tema inequívoco no filme, é a própria Manhattan, que flerta durante todo o tempo com sua presença. A cidade permanecerá, mesmo mudada, mas os relacionamentos, as pessoas que ali habitam, não. Possivelmente se transformarão, no meio e no fim de suas vidas, em pessoas ressentidas e cínicas acerca dos sentimentos do outro. Porém, como em Casablanca (que é citado), onde “sempre teremos Paris”, em Manhattan, sempre teremos novas Tracys e sua juventude e sua disposição de amar, acima de tudo, independente de tudo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-05-20 imdb