Maniac

Sep 30, 2018

Imagens

Dois estranhos se encontram casualmente. Ambos possuem traumas no passado. Um deles é curável, e o outro tem esquizofrenia. Ambos parecem pensar na mesma frequência e frequentam os mesmos sonhos gerados por computador. Ambientado em um mundo ligeiramente futurista e esquisito, com um toque de retrô, a série Maniac tem um quê estético (e temático) que aos poucos nos revela ser um sci-fi pautado em algumas ideias muito mais psicológicas e filosóficas que poderia-se esperar.

Dirigido do começo ao fim por Cary Joji Fukunaga (do sensacional Beasts of No Nation e Jane Eyre), os episódios são pequenos momentos em um experimento que pretende curar o sofrimento humano (no sentido psicológico). Visto como máquinas defeituosas pelos pesquisadores Dr. James K. Mantleray (Justin Theroux) e a Dra. Azumi Fujita (a deliciosa andróide de Ex-Machina Sonoya Mizuno), o trabalho de uma vida de Mantleray se baseia na personalidade de sua mãe, autora de sucesso de livros de auto-ajuda (Sally Field, interessante). Além disso, esta é uma das inúmeras iterações que através de três drogas que geram fases distintas de tratamento, pretende criar a droga mais aguardada da humanidade: a que nos tira a própria humanidade e nos transforma em robôs.

A pegada da série é lúdica e cheia de detalhes divertidos para acompanhar, como as diferentes referências da vida real que viram elementos importantíssimos nas aventuras virtuais dos pacientes (como o livro de Miguel de Cervantes, Don Quixote, não por acaso sobre um maluco que vê gigantes onde há moinhos de vento). E ela nos entrega de bandeja uma análise não dos pacientes em si, mas apenas do casal principal, interpretados por Emma Stone (La La Land) e um Jonah Hill magrinho (O Homem que Mudou o Jogo). Porém, mais que isso, essa também é uma análise dos cientistas por trás da pesquisa, e embora essa seja a parte mais interessante do “longa” (são 10 episódios com menos de 1 hora cada) ela sempre se mantém abaixo da superfície, para que os espectadores mais atentos percebam os detalhes não tão sutis das interações entre o casa de cientistas já citados e os trejeitos e como cada um lida com os problemas que eventualmente começam a acontecer no centro de pesquisa. Não é apenas a pilha gigantesca de cigarros da Dra. Fujita; olhe mais de perto.

Emma Stone ganha o público com uma interpretação maleável, que a quase transforma em outra personagem nas diferentes aventuras dentro do tratamento que virtualiza mundos para que os pacientes interajam com seus problemas na vida real. Uma hora ela é uma cuidadora de idosos que resolve salvar um guaxinim de uma gangue de vendedores de peles, enquanto em outra hora ela é uma elfa que com sua irmã explora as profundezas de seu psiquê. Stone nunca se limita a criar outra persona, mas interage em diferentes níveis entre elas. Há lapsos de memória que conseguem manter uma ligação orgânica, ainda que não completa. E isso é o que nos entrega uma personagem multifacetada.

Já Jonah Hill mais uma vez prova que é ótimo em ser protagonista. Sua esquizofrenia é a parte menos interessante do que sua tentativa sempre frustrada de fugir da passividade esmagadora de sua vida real. Em seus sonhos ele é mais ativo, mas não deixa de ser apenas um elemento em cena que vai ligando pontos. A sua busca é mais enigmática, e assim como tudo na série, os detalhes do seu passado você irá ter que ir pescando em um diálogo ou outro. Porém, Hill consegue manter uma identidade própria através dos sonhos diferente de Stone. Ele é alguém que precisa de cuidados, mesmo que pareça alguém sob controle. As interações entre os dois é o mais interessante de acompanhar por causa dessa dinâmica diferente dos papéis, e por isso nos últimos episódios isso falta um pouco.

Não apenas o design de produção, mas fotografia, figurino, cenários e direção transformam cada episódio em uma imersão quase completa na linguagem psicológica de exploração de quem somos nós. Dessa forma, quando algum problema ocorre em um determinado mundo, não é o problema em si que nos interessamos, mas como ele se manifesta e se relaciona com os personagens da vida real e o que estão enfrentando dentro de suas cabeças. Há um jogo de várias camadas acontecendo, ainda que a série a tente banalizar um pouco, ela é muito mais do que é visto na superfície. Observe o sonho sobre o alienígena e perceba como a fantasia por trás da história é absurda para que consigamos adentrar no verdadeiro problema: o personagem de Jonah Hill sente que estraga até as tarefas mais importantes de sua vida (como seu relacionamento), colocando tudo a perder meio que sem querer (esse sonho ainda tem um plano-sequência de tirar o fôlego).

Como não poderia deixar de ser há inúmeras referências, propositais ou não, das situações no Cinema que unem inteligência artificial com sonhos com psicose com traumas e com análise de personagens (ainda que esses sejam meio estereotipados). Podemos de imediato nos lembrar de 2001 - Uma Odisseia no Espaço e seu HAL-9000 (como não lembrar, já que há LEDs piscando em tudo quanto é lado, cores primárias como identificadores e até as letras dos monitores lembram uma IBM da vida, de onde HAL tirou seu nome). Também há um quê de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, pois sonhos e realidade se misturam nos detalhes.

Maniac dá impressão de não conseguir explorar muito bem seus personagens secundários, que só são importantes para criar a atmosfera nos primeiros episódios. Os diversos assuntos que se abrem nesse tema também ficam um tanto inexplorados, e talvez essa seja uma estratégia para tornar o espectador mais ativo a respeito dos problema inerentes da busca por significado dos humanos na vida. Há de se pensar se a série como um todo não é um grande experimento.

Wanderley Caloni, 2018-09-30. Maniac. EUA, 2018. Criado por Cary Joji Fukunaga e Patrick Somerville, dirigiro por Fukunaga. Com Jonah Hill, Emma Stone, Sonoya Mizuno. IMDB.