Maníaco

2017/11/30

Estou em uma sequência foda de gore. E estamos apenas no segundo. Depois de Cronenberg e seu clássico techno-obscuro A Mosca, este bem mais recente Maníaco, também uma espécie de remake, e estrelado parcialmente por Elijah Wood e parcialmente por sua voz, nos apresenta o ponto de vista mais fascinante de toda história de serial killers: o ponto de vista dele mesmo.

O fato do diretor Franck Khalfoun saber muito de enquadramento e de cinema ajuda. Rebuscando suas origens conceituais no primeiro terror da história – O Gabinete do Dr. Caligari – o filme nos apresenta o personagem de Elijah do ponto de vista de seus olhos. Dessa forma, a câmera é seus olhos. Mas não é um plano-sequência, pois há cortes (como na vida real, aliás, quando piscamos). E o que vemos são suas vítimas e a forma com que ele se aproxima delas, de como respira ofegante quando se aproxima, de como sua voz é vulnerável e doce, e de que por isso ninguém desconfiaria de um rapaz bonito e pequeno como um assassino sanguinário.

Obcecado por manequins, ele possui elementos em sua traumática formação que obviamente fazem ecos de Psicose. Os detalhes vamos descobrindo aos poucos, mas estes vão sendo preenchidos organicamente. O filme faz uma espécie de homenagem aos filmes do gênero, pois não tem muito o que inovar em sua narrativa. Apenas em sua estrutura.

E sua estrutura é cativante. Com essa técnica de mostrar a primeira pessoa ainda podemos ver os delírios do personagem de Elijah, que confunde suas manequins com suas vítimas, e vice-versa. Seu trauma de infância é uma contundente mensagem de como o abuso infantil pode tornar as pessoas prisioneiras eternas da objetificação das pessoas.

Ainda sobre a estrutura, a câmera vez ou outra faz um giro em 180 graus, saindo da primeira pessoa para a terceira, o que é uma jogada inteligente para mostrar que a criança aprisionada no corpo deste maníaco apenas observa enquanto ele, a figura paterna que busca incessantemente ter a maior quantidade de mulheres possível, guardadas em seu saguão do terror.

O gore do filme é uma mistura de trash com psicótico. Ele não é gratuito. Assim como os espelhos não são gratuitos, pois oferecem uma maneira de olharmos de vez em quando para as expressões no rosto do psicopata que vamos levando como nós mesmos dentro do filme. A sensação é estranha quando ele se encontra pela primeira vez com Anna, a belíssima Nora Arnezeder. Ela é o amor perfeito e ao mesmo tempo a vítima perfeita. É trágico e tocante ao mesmo tempo.

Elijah consegue dar sua interpretação fascinante graças parte em sua voz, e parte em sua expressão de aterrorizado, petrificado ou fascinado. Ele é um lunático, e a único aspecto estranho na história é como as pessoas não percebem isso. Talvez seja a forma como nós mesmo conseguimos sobreviver neste mundo cheio de regras sociais. Somos malucos por dentro e temos uma certa proteção enquanto as pessoas não desconfiarem. Espero que não desconfiem. Assim posso ganhar a confiança delas e me fazer passar por alguém normal. Agora sei como o espectador comum se sente. É mais ou menos como eu me sentia quando ligava para essas coisas.

★★★★☆ Maniac. France, 2012. Direction: Franck Khalfoun. Script: Alexandre Aja. Grégory Levasseur. Joe Spinell. Cast: Nora Arnezeder (Anna). Brian Ames (80's Man 1). America Olivo (Frank's Mother). Genevieve Alexandra (Jessica). Liane Balaban (Judy). Jan Broberg (Rita). Aaron Colom (Alley Man). Joshua Delagarza (Martin Nunez). Alex Diaz (Puppeteer #2). Elijah Wood (Frank). Edition: Baxter. Franck Khalfoun. Cinematography: Maxime Alexandre. Soundtrack: Robin Coudert. Runtime: 89. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Horror. Release: 6 September 2013. Category: movies Tags: netflix

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