Máquina Mortífera

2016/11/28

Mel Gibson e Danny Glover estreiam essa franquia que ficou conhecida como a segunda série de ação policial dos anos 80 mais lembrada. A primeira é Duro de Matar (John McTiernan, 1988). Aqui Richard Donner parece brincar um pouco entre o drama, a ação e a comédia, conseguindo isso através do roteiro de Shane Black, que faz o mesmo, e embora sem a perspicácia que foi desenvolvendo com os anos (“Beijos e Tiros”) consegue criar uma das duplas de policiais mais famosa do Cinema.

E isso com uma história quase original, quase clichê. O Sargento Murtaugh (Gloover) faz aniversário e recebe de presente um novo parceiro, o psicótico Martin Riggs (Gibson), que depois da morte da esposa pensa toda noite em se matar. Agora, do lado de Murtaugh, ele pode fazer isso em cada novo caso que os dois tiverem que resolver, seja um suicida se preparando para pular de um prédio (uma das cenas mais famosas do primeiro filme) ou uma atriz pornô se jogando do alto de um prédio.

E se você já assistiu o último filme de Shane Black, “Dois Caras Legais”, provavelmente irá encontrar a rima temática na primeira cena, quando vemos um garoto bisbilhotando as revistas masculinas do pai para ver a própria atração da revista atravessar sua casa dentro de um carro, para depois morrer com seus pudores devidamente cobertos. Isso não apenas denuncia o aspecto ácido dos roteiros de Black, como serve de comparação mais que pertinente entre os anos 80 e os tempos atuais. Quero dizer, na primeira cena de Máquina Mortífera vemos um dos peitos da atriz. E ela se joga do prédio, e acompanhamos com ela a queda. Em um momento seguinte, vemos Martin Riggs disposto a puxar o gatilho com sua bala premiada dentro do tambor e o cano dentro de sua boca, desesperado para passar a dor da perda da mulher. Aconteceu algum problema no crescimento dos jovens nesta geração. Eles não estão dispostos a enxergar o drama da vida real mesmo no Cinema.

Mas não era assim nos anos 80. Aqui você entendia perfeitamente o grau de insanidade de Riggs ao lado de um cansado, convencional e engraçado Sargento Murtaugh. A frase “eu estou muito velho para isso” é repetida três vezes durante o filme, e em todas elas cabe perfeitamente. É engraçada, é espirituosa, é pertinente. Tudo no filme é pertinente. As cenas de ação são reais, encenadas por dublês, mas com carros voando e explodindo de verdade. Sente-se o peso de uma perseguição em Los Angeles, assim como sentimos o impacto visual do encontro no deserto, ou do ataque de helicóptero vindo de um penhasco, do lado de um funeral.

Novos clichês estão sendo erguidos com o peso e a responsabilidade de um Richard Donner que já criou mitos modernos (Superman: O Filme) e enveredou-se por aventuras infantis (Os Goonies) sem perder a energia nem a empolgação. Donner não joga as cenas uma após a outra. Ele se lembra de embutir a personalidade de cada um dos dois em torno das cenas, e mesmo que não funcione algumas vezes o jeito bonachão, é eficaz na maioria delas.

Note, por exemplo, como toda a construção da explosão de uma casa seguida pelo interrogatório de um menino passa pela dedução orgânica de com quem estão lidando, pela construção (no roteiro) de como as deduções de ambos estavam mais certas do que temiam, e uma crítica ao racismo que não precisa parar o filme para se posicionar. Está lá, e você pode prestar atenção a isso ou não. A maior virtude desses filmes é que eles não precisam ficar parando e explicar tudo. O espectador não é burro.

Há muita poeira e explosão em Máquina Mortífera, como deve ser em um filme do gênero que começa a desbravar outro jeito de contar investigações policiais. Querendo ou não, o filme é bom demais para ficar em apenas um. Exatamente o contrário dos dias de hoje, onde filmes de super-heróis nunca são bons o suficiente para nos contentarmos com apenas um. A diferença é sutil, mas está lá.

★★★★☆ Lethal Weapon. USA, 1987. Direction: Richard Donner. Script: Shane Black. Cast: Mel Gibson (Martin Riggs). Danny Glover (Roger Murtaugh). Gary Busey (Joshua). Mitchell Ryan (The General). Tom Atkins (Michael Hunsaker). Darlene Love (Trish Murtaugh). Traci Wolfe (Rianne Murtaugh). Jackie Swanson (Amanda Hunsaker). Damon Hines (Nick Murtaugh). Edition: Stuart Baird. Cinematography: Stephen Goldblatt. Soundtrack: Eric Clapton. Michael Kamen. Runtime: 110. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Action. Category: movies Tags: netflix

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