Margin Call - O Dia Antes do Fim
Wanderley Caloni, 2016-12-21

Hoje Margin Call já tem mais de quatro anos de quando foi lançado. É uma conversa pra lá de realista sobre qualquer empresa de investimentos em 2008 que teve a sacada final de que tudo o que haviam feito nos últimos anos não valia praticamente nada. O filme não dá a menor dica para o espectador sobre o que está acontecendo exatamente, o que é ótimo, pois isso comprova hoje que ele envelheceu tão bem que nem é necessário que ele fale sobre a crise recente. Pode ser um outro momento mais à frente, ou no passado. Que diferença faz? No final das contas, as manipulações estatais na economia sempre irão gerar, inevitavelmente, mais crises.

Esta é uma reunião que vai escalando rápido. Após um downsizing inicial, onde o maior analista de riscos da empresa é mandado embora, um de seus colegas analisa os dados que ele estava prestes a revelar, e descobre que o fim está mais próximo do que ele imagina. Isso vai disparando um efeito de escritório conhecido como “quem come quem”. Todos aos poucos vão sendo envolvidos: estagiário, supervisor, gerentes, diretores. Até a chegada do capitalista malvadão, o dono da empresa. De helicóptero (é claro!). E é aí que começa a festa.

Escrito e dirigido por J. C. Chandor, não estou certo se esse era o objetivo de Chandor, mas este filme é um estudo independente de personalidades em escritórios. Temos o cara que sempre quer saber quanto cada um “está tirando” de salário e bônus. Temos os técnicos que realmente fazem o trabalho, mas cuja discrição logo os tornam vulneráveis a processos de downsizing. Temos os gerentes gerais promovidos muito cedo que se comportam como garotos mimados de quinze anos. E temos, aos montes, aquelas pessoas que ficam na defensiva, esperando o momento certo de pegar a peteca e jogar pro coleguinha.

Dessa forma, Margin Call não é exatamente um filme só sobre a crise de 2008. Não obstante, a história parece querer montar uma alegoria simples e eficaz que pinta os donos de bancos de investimentos como os arquitetos do capitalismo. Vemos todos os personagens, em sua maioria, do topo de um prédio onde se vê toda a cidade. A forma com que o dono da empres em questão fala dá a entender que ele faz parte de um grupo muito seleto de senhores que dá todas as cartas no mundo inteiro de como os mercados devem funcionar (o nome do grupo é Iluminati, google for it), sempre (é claro!) às custas dos mais humildes, pessoas simples que não tem nada a ver com isso (exceto apoiar um modelo corporativista e de alga regulação financeira que torna qualquer estado um manipulador de bombas-relógios para o mercado, como foi o caso da última crise, a penúltima, todas as passadas e futuras).

Há um momento em que o chefão até começa a contar os anos de crashs casualmente. 2007, 1932, 1984… ele já está acostumado a esse jogo. Como não estaria? Desde que foram criados os bancos centrais, há quase 100 anos, tudo que o mundo vê são mais e mais crises financeiras. Curiosamente, quando o capitalismo começou de fato, há 300 anos atrás, não se ouvia muita coisa sobre bolhas. Exceto quando muitos holandeses tentavam vender tulipas ao mesmo tempo… mas aí nem havia surgido a Revolução Industrial.

Todo o elenco está afiado, mas é o roteiro que delineia cada participação como um maestro regendo uma orquestra. De maneira surpreendente, Margin Call se passa em sua maioria em um escritório, no meio da noite, as pessoas só falam, algumas olham algum das centenas de monitores espalhados, e mesmo assim todo o filme é fascinante, passando muito rápido.

★★★★☆ Margin Call. USA. 2011. Direção: J.C. Chandor. Roteiro: J.C. Chandor. Elenco: Kevin Spacey (Sam Rogers), Paul Bettany (Will Emerson), Jeremy Irons (John Tuld), Zachary Quinto (Peter Sullivan), Penn Badgley (Seth Bregman), Simon Baker (Jared Cohen), Mary McDonnell (Mary Rogers), Demi Moore (Sarah Robertson), Stanley Tucci (Eric Dale). Edição: Pete Beaudreau. Fotografia: Frank G. DeMarco. Trilha Sonora: Nathan Larson. Duração: 107. Aspecto: 1.85 : 1. Biography. #netflix