Marinheiro de Encomenda

Esse filme, assim como Os Irmãos Cara-de-Pau, tem um ritmo que cozinha em fogo lento até uma sequência absurda e frenética (até para a época) envolvendo um acontecimento que muda todo o rumo da história. É difícil saber como toda ela foi criada: Buster Keaton é um especialista em trucagens cinematográficas, como já visto em Sherlock Jr. Porém, é impossível ficar impassível a tantos truques que além de impressionantes continuam colaborando com a narrativa.

A história se passa em New Orleans em cenário e figurino que hoje também serve como um documentário da época. Keaton é filho do dono de um navio antigo que corre o risco de ser desativado pelo seu mais novo concorrente. A rivalidade entre eles chega até seus filhos, e o ódio ao diferente é uma forma de crítica social, ainda que rasteira.

Há algo de estranho na cópia disponível na Netflix, parece acelerada. Depois de ter visto Tempos Modernos apenas um dia antes e me parecer normal, pode ter relação com a época ou como foi filmado (apesar de ambos serem mudos e em P&B estão há anos de distância, e seria o mesmo dizer que O Artista, de 2011, está destoando de seus parceiros técnicos). Porém, uma coisa é certa: a trilha sonora usada é a pior coisa do filme. Distrai e não acrescenta quase nada, com exceção do final frenético já citado.

De uma forma ou de outra, Buster Keaton tem alguma coisa em sua forma de fazer filmes que fascina e pelo qual certamente era fascinado: contar histórias que não seriam possíveis sem efeitos especiais. Essa é a herança que vemos em Jurassic Park, Forrest Gump, Avatar e tantos outros que dependem do impossível para fazer-nos crer que tudo é possível no Cinema.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-01-06 imdb