Martyrs

Um terror mais sobre ideias, embora recheado de violência. Utilizando uma premissa simples e um desenvolvimento econômico, Martyrs não precisa contar muito sobre seus personagens, embora se tornaria muito mais palatável do que a velha aposta no sofrimento genérico em seres humanos que acabamos de conhecer e não sabemos nada sobre eles.

Esse é mais um remake de terror estrangeiro – no caso, francês – feito em Hollywood para contar uma história já universal. Sua crítica, ou sua digressão, a respeito da dor e sofrimento infringidos à raça humana graças à religião e outras ideologias que tratam indivíduos como seres descartáveis sacrificados por um bem maior – em uma época de efervescência política, não precisa ir muito longe para enxergar o nazismo, o fascismo, o socialismo e o comunismo representados – é seu ponto forte, já que seu roteiro parcialmente manipulativo e seu velho jogo de “é sobrenatural ou não” divertem, mas não impressionam.

Sendo assim, a amizade de duas jovens órfãs, e o trauma que uma delas carrega por uma década, sendo amparada pela outra, poderia ser melhor desenvolvido. Não é. Mas, mesmo assim, o que se passa depois desses dez anos é deliciosamente surpreendente, por fazer parte de um jogo simples, mas brutal, e que faz pensar, e muito, depois que o filme acaba.

Porém, antes disso, há uma reviravolta particularmente inspiradora envolvendo uma família e sua casa, que é mostrado com uma energia contagiante. Há violência, e muita, mas gráfica, mesmo, quase nenhuma. Claro, os closes e a profundidade de campo rasa torna tudo meio conturbado sem muito o que ver, mas não deixa de ser uma experiência atordoante justamente por causa disso. E a presença de um ente maligno é menos aterrorizante do que a revelação de quem criou esse trauma.

Uma direção interessante dos irmãos Goetz que compensa um roteiro bacana, mas que gera soluções fáceis demais em seu terceiro ato. A trilha sonora é parte itinerante nesse circo de horrores, onde, assim como a série American Horror Story, o maior horror é a capacidade humana de fazer o mal.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-03-31 imdb