Mary e Max uma Amizade Diferente

Apr 16, 2010

Imagens

Tudo em “Mary e Max” é construído para tentar responder uma das perguntas emocionalmente mais ambiciosas e filosoficamente mais intrigantes que nós, passageiros desse planeta em direção à morte, nos fazemos de vez em quando: o que é a amizade?

Mary (Toni Collette), uma menina da Austrália, começa a se comunicar ao acaso através de cartas com Max (Philip Seymour Hoffman), um senhor de meia-idade de Nova Iorque. Habitantes cada um do seu mundinho particular e distante, suas cores não se misturam, suas músicas possuem diferentes tons, suas idades são incompatíveis (o futuro de Mary é do mesmo tamanho que o passado de Max). Mesmo assim há algo que os une e a todos nós de uma maneira indissociável e misteriosa: a solidão, e uma fascinante melancolia que torna tudo triste à sua volta.

Presos ou na infância lúdica e suas dúvidas e descobertas, ou na velhice autista e seus pequenos desafios do dia-a-dia, as confissões entre esses dois seres tão díspars flui de uma maneira admirável graças à direção precisa de Adam Elliot que com a ajuda de seu montador Bill Murphy combinam luz (Gerald Thompson), som (Dale Cornelius) e uma arte (Craig Fison) em “stop motion” em sincronia com os sentimentos dos seus personagens, que florescem em torno de uma narração onisciente (Barry Humphries) que lê as tais cartas de uma forma empolgante, quase como se conhecesse a fundo cada uma dessas almas separadamente e fizesse de tudo para juntá-las em assuntos comuns. O mais maravilhoso é perceber como até assuntos corriqueiros (como o nascimento dos bebês) se tornam fascinantes nas mãos do hábil roteirista que sintetiza tudo que eles escrevem de uma maneira surpreendentemente orgânica e trivial, mas que mantém uma profundidade digna dos diálogos de Antes do Amanhecer e suas continuações.

Porém, fora a descrição contemplativa, a versão animada da imaginação de ambos é uma diversão à parte, assim como os estranhos seres, animais e humanos, que permeiam a vida dos dois. Além disso, essa não é uma história estática que foca no passado, pois temos o privilégio de acompanhar o crescimento e amadurecimento de Mary, que vai aos poucos sentindo o peso da vida. O que a mantém em movimento em vários momentos é sua amizade com Max. A recíproca é verdadeira, e conseguimos captar através de uma comédia leve que consegue tornar a morte frequente de seus peixes de estimação como uma gag tão eficiente pelas risadas quanto significativa pelo que simboliza, que o velho Max está tão perdido quanto Mary, mas que graças ao seu suporte tenta melhorar de sua doença, nem que seja um pouco a cada dia.

O que nos leva ao impecável terceiro ato, que depois de nos conquistar completamente com personagens tão verossímeis quanto atores de carne-e-osso de um drama “live action”, tem a proeza de criar momentos tensos e dramáticos entre os dois mesmo mantendo a distância física que os separa. “Mary e Max” não consegue explicar do que são formadas as amizades, mas consegue descrever com perfeição a amizade desse dois, o que para mim já vale por todos nós.

Wanderley Caloni, 2010-04-16. Mary e Max uma Amizade Diferente. Mary and Max (Australia, 2009). Dirigido por Adam Elliot. Escrito por Adam Elliot. Com Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Barry Humphries, Eric Bana, Bethany Whitmore, Renée Geyer, Ian 'Molly' Meldrum, John Flaus, Julie Forsyth. IMDB.