Masculino-Feminino

Feb 19, 2016

Imagens

Jean-Luc Godard, em plena década de 60, em um filme aparentemente biográfico, que funciona leve, sem lógica, mas com acontecimentos que não fogem da realidade, mas entram em nossa estranheza do incompreendido, das coincidências exóticas. Mas é uma época pulsante, com questões juvenis incompreendidas. Godard tinha minha idade quando o fez (36), e ele discute muito sobre o homem, a mulher, e os dois juntos.

Há a bela Madeleine (Chantal Goya), entre outras, que o filme insiste em mostrar em planos-detalhe em meio a mesas nas esquisas dos cafés da França, barulhos de rua, pessoas indo e vindo. Sua relação com Paul (Jean-Pierre Léaud) é platônica, mas é motivo suficiente para que isso gere ciúmes de outras mulheres. Ao mesmo tempo temos jovens igualmente interessados em Madeleine. Paul é o principal, e a morte ronda ele. Ah, como ronda!

Porém, não há história que abrace o que está sendo dito. Talvez experimental seja uma palavra mais adequada para extrair o gênero que Masculino-Feminino, usando seus sub-títulos, suas construções sonoras, seus diálogos inusitados e sem sentido. É um filme-poesia, que pode encantar quem procura algo diferente do normal (mesmo hoje) ou aborrecer quem não entende nada do que acontece. E isso tende a piorar.

Com uma linda fotografia P&B que serve quase como um documentário da época, a Guerra do Vietnã é o foco, e com isso o roteiro (do próprio Godard baseado em histórias de Guy de Maupassant) aproveita e questiona, ou melhor dizendo, joga questões não-respondidas, sobre política. Ele está conversando com o espectador, mas usa seus personagens todo o tempo. Ele não precisa de uma narrativa para mostrá-las, pois apenas a curiosidade em torno dos jovens é suficiente.

Talvez o único defeito grande do filme é ficar sem moral, ou um fechamento chamativo. No entanto, está tudo lá, espalhado no meio da “história”. Se fala de prostitutas como se fala de romance, ou de gravidez como se fala de pessoas morrendo na Índia. É uma coletânea de fatos e ficção entrelaçados em torno de nada. Se não há moral nesse experimento, não há como criticar ou julgar seus personagens e seu idealizados. Uma solução covarde ou uma plataforma de testes. Ainda assim, fascinante.

Wanderley Caloni, 2016-02-19. Masculino-Feminino. Masculin féminin (France, 1966). Dirigido por Jean-Luc Godard. Escrito por Guy de Maupassant, Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud, Chantal Goya, Marlène Jobert, Michel Debord, Catherine-Isabelle Duport, Evabritt Strandberg, Birger Malmsten, Yves Afonso, Henri Attal. IMDB.