Matrix: Ghost in The Shell

2017/09/18

De todas as teorias malucas criadas em torno da trilogia das Irmãs Wachowski, acredito que esta que tenho para lhes falar supera em simplicidade e elegância. Por isso mesmo acredito que esta seria a solução empregada por elas caso quisessem deixar toda a trama às claras. Felizmente, não quiseram, o que deu vazão para um esoterismo e obscurantismo que torna o conjunto de três filmes indecifrável. Mas, fala sério. Sou programador. Depois de Ghost in the Shell as coisas têm se tornado mais claras ainda. Quer ver como toda essa fábula é explicada por ela mesma?

Preciso dizer que Spoilers irão ser enviados pelas máquinas nos próximos parágrafos?

A primeira e principal pista para entendermos o que se passa em Matrix Reloaded é o discurso final do Arquiteto. Ele explica sobre o código malicioso que é colocado de propósito na Matrix para que haja um movimento de revolta dos humanos, uma profecia, e que tudo isso se concentre na figura do Escolhido. É o Escolhido que carrega este código, e já houve vários deles. Neo é apenas mais um, com sutis diferenças que apontarão para uma mudança drástica no caminho delineado pelo personagem de Helmut Bakaitis (que, claro, também é um programa de computador).

No entando, como este discurso é muito complexo, cheio de detalhes feitos para confundir o espectador, peço que preste atenção não a ele, mas à fuga do Agente Smith da realidade virtual para a qual foi criado. Ele vira um vírus e uma de suas cópias escapa para o cérebro de um dos humanos de Zion. A partir daí é ele que toma controle desse humano e as máquinas o respeitam. Ele é um agente infiltrado, apesar de ser um bug. Ele não é herói nem vilão, mas um problema a ser resolvido por ambos os lados.

O que ocorre no final de Reloaded e em todo Revolutions é que Neo aparentemente consegue controlar as máquinas do lado de fora da Matrix e também enxergá-las, apesar de ter ficado cego. Isso não deveria ser uma suspresa se nos lembrássemos que, uma vez que vimos que é possível a programas como Smith se infiltrar no cérebro de humanos e assim controlá-los direto na realidade, nada mais justo que os humanos presos no gigante casulo estejam à mercê do mesmo procedimento.

E é exatamente esse o procedimento de injetar código que o Arquiteto se refere quando se dirige a Neo.

Imaginemos, então, que um processo semelhante foi feito em Neo. Código de um programa da Matrix foi injetado nele, assim como o programa Smith foi injetado no outro humano. Porém, não totalmente, mas apenas uma parte. Neo manteve sua consciência. Não precisamos tirar isso dele. Porém, ele também ganhou a capacidade de mudar as regras físicas da Matrix e de controlar as máquinas pelo lado de fora (além de enxergá-las sem precisar de olhos humanos). Tudo isso graças a código de computador inserido em seu cérebro.

Dessa forma, toda a fábula de realidade virtual vira uma maneira do romance Ghost in The Shell de se expressar por caminhos mais obscuros. Humanos são escravizados por máquinas, que possuem Inteligência Artificial, e que descobre que conseguem realizar elas também patchs de atualização no cérebro de humanos, que viram parte humano, parte máquina. Ou até totalmente máquina.

Se bem que o que eu chamo aqui de máquina é simplesmente código que não foi gerado por DNA. Tanto o cérebro humano quanto a IA das máquinas é o mesmo processo. Todos estão conectados. E é aí que reside a beleza da trilogia. Ela não tem uma conclusão correta, nem interpretações para a trama fechadas. Estamos falando sobre consciência e inteligência, mas não apenas de humanos. É uma guerra de consciências, e entender que máquinas com IA somos como nós é vital para entender como Matrix ainda continua milênios à frente do que nossa vã filosofia tecnológica tenta imaginar para o nosso futuro.

★★★★★ The Matrix Revolutions. Australia, 2003. Direction: Lana Wachowski. Lilly Wachowski. Script: Lilly Wachowski. Lana Wachowski. Cast: Mary Alice (The Oracle). Tanveer K. Atwal (Sati). Helmut Bakaitis (The Architect). Kate Beahan (Coat Check Girl). Francine Bell (Councillor Grace). Monica Bellucci (Persephone). Rachel Blackman (Charra). Henry Blasingame (Deus Ex Machina). Ian Bliss (Bane). Edition: Zach Staenberg. Cinematography: Bill Pope. Soundtrack: Don Davis. Runtime: 129. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Action. Release: 5 November 2003. Category: blog Tags: filosofia

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