Matrix Reloaded

Justiça seja feita: Matrix Reloaded é um esforço monumental dos irmãos (ou irmãs) Wachowski e o produtor Joel Silver em expandir e comentar o universo criado em seu antecessor, “Matrix”. O filme e o roteiro tentam instigar a todo momento o espectador a pensar fora da caixa. Usa metáforas com o mundo dos computadores e argumenta tanto de maneira mística quanto filosófica. Exibe momentos cinematográficos exuberantes, muitas vezes apenas “porque sim”, mas pelo menos nunca deixa de cuidar que pop, cult e intelectual caminhem juntos.

E é por isso que eu, disposto a emendar minha revisita e Reloaded junto do terceiro filme, “Matrix Revolutions”, não pude conter o ímpeto de escrever primeiro sobre este filme do meio, que apesar de intermediário, se mantém íntegro e com uma conclusão mais que satisfatória: quase que final.

Apesar de haver diversas cenas “externas”, tudo gira muito mais em torno de Matrix, um mundo virtual onde os humanos, apesar de serem mantidos fisicamente em casulos por máquinas dotadas de inteligência artificial e que um dia foram seus mestres, hoje são apenas carne e terminações nervosas conectadas a um centro de sentidos programável, um lugar abstrato onde as mentes de indivíduos perambulam e interagem por representações do que um dia foi um mundo onde viviam “de fato”, mas hoje reside em um mainframe, representado por um prédio brilhante e impecável no meio de uma cidade simbólica.

A premissa inicial, no entanto, é um ataque iminente a Zion, a cidade dos humanos foragidos da Matrix, e muito mais um pano de fundo para os personagens que veremos em ação, ironicamente, em um mundo virtual muito mais plástico e maleável que o visto no primeiro filme. Descoberta pelas máquinas, elas estão cavando para iniciar um ataque nunca antes visto à cidade de humanos. Essa história parece ter sido contada inúmeras vezes, mas nunca perde seu apelo universal.

Os habitantes de Zion são maltrapilhos que sobrevivem graças a outras máquinas, que produzem a energia e os alimentos necessários para manter uma sub-existência. Há uma sequência libertadora – e hoje bem piegas – de uma rave que mostra a diferença da “liberdade” desses humanos e a limpidez quase doentia do mundo virtual. Com uma maioria detentora de treinamento e capacidades militares, o objetivo de Zion é um dia libertar todos os humanos. Enquanto isso, alguns sonham que este dia já chegou com Neo (Keanu Reeves), um foragido que consegue realizar atos impensáveis na programação do mundo virtual, e é visto como um salvador de uma profecia, incluindo aqui seu próprio salvador, Morpheus (Laurence Fishburne). Tendo como sua única preocupação o agora amor de sua vida, Trinity (Carrie-Anne Moss), o herói está cercado de expectativas de todos os lados, mas isso não impede que os mais céticos teçam suas críticas ao desperdício de recursos em procurar os próximos passos da tal profecia.

Muitas das cenas em Reloaded, ou a maioria, depende de um conhecimento prévio e muito bem embasado do universo descrito no original. Esse filme não pode parar para explicar quase nada, quem dirá os fundamentos de como funciona a interação entre os dois mundos. O exagero em termos técnicos pode confundir ainda mais o leigo fã de ficção científica, mas com certeza trará prazeres inesgotáveis a programadores e pessoas mais underground de informática, com referências divertidas, como “backdoors”, vírus e programas que caem em desuso.

Conseguindo equilibrar de maneira eficiente suas ideias e sua ação, o filme de quase duas horas e meia consegue prender a atenção a todo momento, pois há muito o que ser entendido e o clima de urgência praticamente suplica que você preste atenção em tudo. Isso significa perder um bom tempo tentando entender conceitos que serão jogados fora, postergados ou simplesmente de passagem, como figuras como o Chaveiro ou as próprias revelações em torno do Agente Smith (Hugo Weaving), que ganha uma função extremamente eficiente de tensão, mas que é usado em demasia para tentar mantê-la nas cenas mais empolgantes.

Como a luta entre Neo e as dezenas de agentes, que consegue manter uma crescente invejável como sequência de luta e momentos gráficos plásticos, mas não menos eficientes, já que estamos falando, de qualquer forma, de um mundo gerado por computação. Da mesma forma, a sequência final consegue manter um alto grau de credibilidade, mas não chega perto da tensão em uma sequência particularmente longa em uma auto-estrada.

Porém, tudo isso é cercado por muitas cenas que precisavam de uma polida final. Erros graves de continuidade começam a aparecer em muitos lugares – como a altura de uma espada ou a rapidez conveniente em que eventos acontecem, como a transformação em sócia de Agente Smith. Um roteiro muitas vezes preguiçoso tenta juntar momentos diferentes da história usando simples conveniência. E nem todas as cenas de luta são sensacionais. A que ocorre na entrada de um castelo é particularmente bonita, permitindo que os Wachoski capturem pelo menos um momento memorável, mas vazia por dentro, pois sabemos do poder de Neo e como as figuras em torno dele parecem se tornar irrelevantes frente às suas capacidades. A introdução dessa cena é feita com ele parando centenas de balas no ar. O que vem a seguir realmente não tem pretensão de impressionar.

Ainda assim, o terceiro ato é, sem sombra de dúvida, digno do terceiro ato do filme original. Conseguindo através de pequenas artimanhas colocar Neo de encontro com uma figura emblemática e que explica os acontecimentos de uma maneira verborrágica e ainda assim altamente interpretativa, talvez essa seja a primeira vez que eu tenha entendido até onde vai todas as camadas filosóficas do trabalho dos Wachoski. Tanto que a “revelação” final não tenha soado tão apelativa como pareceu quando vi o filme pela primeira vez (e a segunda, e a terceira). Pelo contrário: ela parece querer percorrer todo o caminho do raciocínio envolvido nas questões existenciais trazidas à tona de destino, propósito e programação. Se os seres humanos convivem com programas na realidade virtual, Neo, com seus poderes, é, ao mesmo tempo, programa e humano. E um programa é apenas uma representação abstrata de comunicação, em última análise, física: impulsos elétricos.

Mas tudo isso são apenas elucubrações que algumas obras como Reloaded oferem ao público, em um tipo de filme que merece ser discutido pós-créditos finais (o que de fato fiz, e muito). Filmes de ação são divertidos e empolgam, mas quado estes vêm com uma boa dose de ideias, se tornam igualmente memoráveis no imaginário visual que oferecem.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-05-06 imdb