Matrix Revolutions

Não é fácil lidar com a própria ignorância. Viciados em ciência e suas explicações muito boas para o nosso mundo, além do fato de nosso código genético conter uma necessidade incontrolável de extrair sentido para tudo, e portanto anseia por explicações a todo momento que não deixe margens para dúvida, muitas vezes nos esquecemos que na realidade há muito nela que é nossa interpretação. Podemos ter uma boa ideia do que ela significa para todos a todo momento, mas nunca a verdade completa do que isso significa para cada um de nós.

E o filme-continuação dos Irmãos Wachowski para o universo “Matrix”, que lida com questões existenciais, filosóficas, místicas e tecnológicas, tudo no mesmo pacote, acertadamente evita responder todas as questões levantadas no filme do meio, “Matrix Reloaded”, para antes se consolidar como uma viagem ambiciosa a um mundo extra-sensorial e lançar mais um punhado novo de ideias que tentam a todo o momento colorir ainda mais a interpretação dessa realidade imaginada pela dupla de diretores.

Tendo se tornado um cult desde o momento em que foi lançado, o filme original carrega uma legião de fãs; muitos, inclusive (como eu), começaram ou voltaram a se interessar por filosofia simplesmente por conta de um filme de ação e ficção-científica instigante que se baseia na premissa deste mundo ser uma ilusão, controlada por máquinas que dominaram os seres humanos e o planeta, se tornando sua própria realidade. De maneira fascinante, as máquinas tomam forma de insetos, pequenos ou gigantes, mas sempre dispostas a tudo para manter o status quo de sua “colmeia”.

No entanto, o que Reloaded e Revolutions dizem a todo o momento é que nem tudo é o que parece, e que nem as máquinas nem seus programas desenvolvidos para controle conseguem de fato um controle absoluto, como se deveria esperar de uma inteligência artificial altamente desenvolvida. Através de diferentes conceitos jogados no mesmo caldeirão de teorias – entre elas a famigerada multicamadas, que diz que o mundo real do filme é apenas mais uma camada da Matrix – entendemos que ninguém é de fato protagonista desta história, e se Neo se veste de salvador da humanidade, ele no fundo é o que menos sabe o que fazer.

Conseguindo se tornar nesse terceiro filme uma fantasia tão ou mais empolgante que a série Star Wars, por nos fazer acreditar naquele universo, Matrix Revolutions, assim como Reloaded, divide seu tempo entre o místico e o prático. A praticidade é Zion formando uma estratégia para se defender do enxame gigantesco de máquinas que se digerem à cidade para dizimar os únicos humanos livres da realidade virtual. O lado místico é mais tortuoso, pois lida com questões ainda não respondidas, em uma situação desesperadora até para o Oráculo, o programa que representa o banco de dados das ações passadas, presente e futuras dessas entidades – humanas ou não – naquela realidade.

Dessa forma, nossa atenção se divide igualmente entre a inesquecível batalha de Zion e o destino de Neo e seus seguidores, que desde o filme original almejam um objetivo muito maior e mais nobre: a paz entre humanos e máquinas.

Tendo conseguido com sucesso apresentar na segunda parte personagens que se tornarão mais importante nessa terceira parte, principalmente entre os moradores de Zion, Matrix Revolutions consegue se manter com muito pouco, a exemplo da saga citada de George Lucas, graças principalmente à inventividade visual de seus idealizadores, que conseguem criar momentos tão inspiradores de luta e de busca pelo conhecimento, que a quase inexistência de uma trama mais elaborada – ou com pontas mais fechadas – passa praticamente despercebido.

Dessa forma, o universo Matrix ganha uma conclusão mais que merecida, pois em vez de fechar portas e explicar de uma vez por todas o que tudo aquilo significa, permite que essa realidade continue sendo um enigma em seus pequenos detalhes. Talvez porque ninguém detenha de fato o conhecimento absoluto do que foi criado naquela realidade virtual, que transcende sua própria virtualidade. Talve porque os irmãos Wachoski estivessem trabalhando com material reciclado em um arcabouço de ideias praticamente infinito a respeito da existência. De uma forma ou de outra, isso não importa para o desenvolvimento do seu tema. Parafraseando Morpheus da maneira errada, cedo ou tarde aprendemos que há uma diferença entre não saber o caminho… e percorrer o caminho que não sabemos onde vai dar.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-05-07. Matrix Revolutions. The Matrix Revolutions (Australia, 2003). Dirigido por Lana Wachowski, Lilly Wachowski. Escrito por Lilly Wachowski, Lana Wachowski, Lilly Wachowski, Lana Wachowski. Com Mary Alice, Tanveer K. Atwal, Helmut Bakaitis, Kate Beahan, Francine Bell, Monica Bellucci, Rachel Blackman, Henry Blasingame, Ian Bliss. imdb