Metástasis (piloto)

Tive uma experiência no mínimo curiosa esta noite. Não, não é o que você pode estar pensando se você não me conhece. Quem participou da experiência comigo foi a Netflix. E Saul Goodman, ou James McGill. E Walter White e seu alter ego latino, “Señor Blanco”.

E eu recomendo essa experiência.

Better Call Saul está em seu quarto episódio e já apresenta pelo menos dois episódios imperdíveis. Não estou falando do piloto. Esse peca por demais no preciosismo e na dramatização, além de ficar parado por muito tempo em um futuro que nós já conhecemos enquanto aguardamos pelo passado glorioso dos anos 70, quando Saul Goodman era James McGill, um advogado lutando para conseguir clientes fora o círculo do inferno conhecido como sistema jurídico estatal norte-americano.

Também não estou falando do terceiro episódio, esse intermediário que lembra por demais essas séries infinitas de investigação, policiais, FBI.

Estou falando em específico do segundo episódio dirigido pela fodástica Michelle MacLaren, uma das produtoras e que dirigiu episódios em nada menos que três séries atualmente no topo da literatura de internet: Breaking Bad, The Walking Dead e Game of Thrones.

Nesse episódio temos a primeira defesa de Saul – não consigo chamá-lo pelo nome de batismo – ancorado em um dos princípios morais mais primitivos e bárbaros: a lei de Talião. Olho por olho, dente por dente. Pelo menos essa lei faz mais sentido na cabeça oca do explosivo Tuco, o outro lado da negociação.

Através de um desempenho desajeitado, mas eficaz, Saul consegue salvar a vida de dois jovens pilantras. É seu primeiro “case” de sucesso, e significa o pilar moral de sua futura função que tanto nos divertiu em Breaking Bad, uma série que ainda merece muitas revisitas. Saul defende bandidos, mas arma uma arapuca mental para justificar seus atos. Ele age da mesma forma para justificar os atos de seus clientes. É um personagem discutindo acidentalmente a nossa moral enquanto torcemos por Walter White, um traficante e produtor de metanfetamina e uma lista de corpos que cresce a um ritmo exponencial. Agora Saul é o protagonista, o que nos permite analisar esse mecanismo mais de perto.

E onde chegamos no irretocável quarto episodio, quando aprendemos que o jovem Saul aplicava golpes que garantiam uma grana para garantir a birita da noite, mas que, principalmente serve de gancho para uma sequência que irá se desenrolar quase no outro extremo da história. Aqui a atuação de Bob Odenkirk começa a sair um pouco do arroz-com-feijão que estávamos acostumados (e que era ótimo) em Breaking Bad. Tenho bons pressentimentos sobre o desenrolar desse roteiro de Vince Gilligan e Peter Gould.

Não cansado daquele universo, resolvi dar uma olhada na nova série latina que estreou também na Netflix, Metástasis. E adivinha só? É do mesmo Vince Gilligan, ajudado por mais três roteiristas e dirigido por Andrés Baiz e Andrés Biermann, que não possuem nenhuma relação com a série original. Daí você me pergunta: “e daí?” Bom, se trata do mesmíssimo roteiro, com o mesmíssimo número de episódios. Daí você me pergunta (já impaciante). “OK, e daí?” E eu já vi que você não se interessa muito pela arte cinematográfica. O. Mesmo. Roteiro. Mas. Outra. Direção! Podemos comparar a mesma história, com praticamente os mesmos diálogos, mesmas cenas, mesmos personagens, e sentir qual o verdadeiro peso de uma direção em um filme/série.

Obviamente que não é apenas a direção que muda. Fotografia, figurino, direção de arte, atores… digamos que pelo menos o roteiro não muda. E a trilha sonora ainda está por conta de Dave Porter, que faz as trilhas de Breaking Bad e Better Caul Saul também.

A maior decepção talvez seja o ator que interpreta Jesse Pinkman no remake. Enquanto Walter White vira uma espécie de caricatura de si mesmo, Jesse é apático perto do desempenho de Aaron Paul desde o começo. Note como ele lembra o “Professor White” que ele não sabe de nada de química porque ele o reprovou.

Não é preciso dizer, claro, que não se pode esperar nada próximo do Walter White de Brian Cranston, que também oferece uma atuação digna de prêmios já no piloto da temporada. Não encontrei a sequência completa, mas o momento em que ele decide pôr fim à própria vida é hilário e tocante ao mesmo tempo. (A do remake também é, mas de uma maneira engessada e pausterizada.)

Ainda assim, a sensação geral foi que direções muitas vezes são supervalorizadas. Um roteiro bem escrito consegue milagres, como é provado nesse piloto de Metastasis. Um trabalho menos, de baixo orçamento, mas que se fosse o original, atrairia um público pronto para sensações diferentes do mais do mesmo (assim como eu fui fisgado alguns anos atrás por Breaking Bad).

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-03-03 imdb