Meu Primeiro Amor

2017/10/29

A morte pode ser um catalisador de emoções. Através dela passamos por uma transformação dentro de nós que ao mesmo tempo que nos enfraquece pela dor insuportável também nos fortalece pela nossa capacidade de sobreviver. E no fim de um processo de luto algo maravilhoso acontece: voltamos para a vida mais fortes. De vez em quando iremos mexer nessa ferida do passado, e certamente irá sangrar. Mas é através desse sangue que fazemos novos pactos com os que ainda estão vivos. Porque no fundo de todos nós não há muitas diferenças. Somos humanos; estamos condenados a viver sabendo que um dia iremos morrer. Ou pior: os que nos cercam também irão.

Essa história de férias chega exatamente como o verão: inocente, despretencioso. Gostoso de viver. Acompanhamos estes dias através dos olhos de Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky), uma menina de pouco mais de onze anos que parece amadurecer mais rápido que suas colegas de escola. Também, pudera: ela está acostumada a conviver com a morte desde que nasceu. Seu pai (um contido e competente Dan Aykroyd), viúvo, cuida de uma funerária em sua própria casa, e Vada inicia sua narrativa falando de todos os seus sintomas para o pai, que prepara seu café da manhã. No final ela conclui: “pai, isso só quer dizer uma coisa: estou morrendo”. Sua resposta: “querida, me passe a maionese da geladeira”.

Os primeiros cinco minutos do filme já introduzem a hipocondria de Vada, sua amizade improvável com Thomas J., um garoto “alérgico a tudo” (Macaulay Culkin, surpreendentemente mais fofo ainda que em Esqueceram de Mim) e a vinda de uma potencial madastra, ou seja, um conflito (Jamie Lee Curtis, muito bem por sinal). Ah, e também sabemos que Vada está perdidamente apaixonada pelo seu professor, Mr. Bixler. Ela quer ser escritora quando crescer e frequenta seu curso de poesia nas férias.

Os passeios de bicicleta entre Vada e Thomas J. evocam uma nostalgia poderosa pela cidadezinha onde moram, pela linda árvore próxima ao lago e por como tudo isso é melhorado pelo diretor de fotografia Paul Elliott (Bravura Indômita), que usa aqui um filtro que mescla o onírico (que mistura as cores dos cenários e dos personagens) com o calor gostoso do verão (e as cores sempre atingidas pelo sol). Tudo isso é acompanhado pela seleção de músicas que beira o clichê, mas que certamente hoje se transformou em uma trilha de clássicos do cinema, e que fazem parte de um elegante passeio por uma época.

E Meu Primeiro Amor flerta a todo momento como um filme piegas, o que seria a coisa mais arriscada que um filme de verão poderia fazer. Porém, a presença de tela de Anna Chlumsky e de Macaulay Culkin, capturados em seus melhores ângulos das melhores tomadas, conseguem fortalecer a poderosa ideia de que este trabalho do diretor Howard Zieff (em seu penúltimo trabalho) não está brincando a serviço. Esta não é uma comédia inconsequente passando nos cinemas, mas um drama intimista sobre o amadurecimento de uma criança atingindo a puberdade cheia de conflitos internos.

Note como Zieff não permite que sua direção fique no caminho do roteiro da estreante Laurice Elehwany porque ele é bom demais. Ele tem falas que capturam a essência das cenas sem revelar muito: “cansei de bingo, acho que podemos tentar o tal do drive-in”, “saia daqui! e só volte em cinco ou sete dias!”. E eu nem vou dizer que a passagem onde Vada explica como ela acha que deve ser o paraíso é um dos grandes momentos do cinema. Não porque ele seja particularmente tocante ou inteligente, mas porque ele entrega dois personagens que todos nós já fomos um dia em um daqueles momentos que se lembra a vida inteira.

Isso porque o filme em si é sobre a própria vida, e o processo de vivê-la mesmo sabendo que a morte dos entes queridos, ou a despedida, é uma realidade que tivemos ou teremos que lidar. “My Girl” tenta enxergar a beleza onde pode haver muita dor e sofrimento. Não é possível criticar um filme que abrace essa ideia com tanto afinco. Não enquanto estivermos todos aqui, empenhados em tornar nossa condenação de viver a mais próxima do paraíso possível.

★★★★★ My Girl. USA, 1991. Direction: Howard Zieff. Script: Laurice Elehwany. Cast: Dan Aykroyd (Harry Sultenfuss). Jamie Lee Curtis (Shelly DeVoto). Macaulay Culkin (Thomas J. Sennett). Anna Chlumsky (Vada Sultenfuss). Richard Masur (Phil Sultenfuss). Griffin Dunne (Mr. Bixler). Ann Nelson (Gramoo Sultenfuss). Peter Michael Goetz (Dr. Welty). Jane Hallaren (Nurse Randall). Edition: Wendy Greene Bricmont. Cinematography: Paul Elliott. Soundtrack: James Newton Howard. Runtime: 102. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Comedy. Release: 17 January 1992. Category: movies Tags: paulocoelho

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