Michelle e Obama

2016/10/19

Este é o Antes do Amanhecer se Jesse e Céline fossem pessoas (ainda) mais engajadas com suas opiniões, estivessem ligeiramente mais velhos e mais acostumados com a vida real e os desafios de tentar mudar o mundo. Felizmente, há também diálogos interessantes de se acompanhar, e ele é ligeiramente mais dinâmico que o filme de Richar Linklater, com mais contexto, e uma conclusão.

Desde o começo há uma certa solenidade em apresentar o futuro presidente e a futura primeira-dama do país em seu primeiro encontro. Vemos um Barack Obama jovem, mas já com seu sorriso confiante (mesmo com um carro caindo aos pedaços) e uma Michelle preocupada com diversos detalhes – como não se envolver com colegas de trabalho – para que sua carreira siga sua ascenção merecida. Aos poucos percebemos que estamos adentrando em um filme que preza pelo saudosismo ao mesmo tempo que se concentra em apresentar um casal imerso em suas carreiras e ao mesmo tempo interessados um no outro, obviamente no lado físico, mas aos poucos no mundo das ideias.

E este é um filme feito por várias ideias, como comprovam os diversos diálogos que falam sobre diversos temas. O casal passa a tarde inteira juntos em diferentes eventos, como um museu, um parque e uma visita à comunidade política do bairro. E em cada um deles há assuntos que conseguem abordar suas vidas pessoais, profissionais e a situação do país na época. Aos poucos Obama fica mais fascinado pela grande mulher ao seu lado, enquanto Michelle aos poucos se convence que é inútil tentar controlar sua vida de maneira tão mecânica.

O diretor/roteirista estreante (em longas) Richard Tanne realiza aqui um trabalho cuidadoso, que situa os personagens da vida real em momentos mágicos de sua vida, ao mesmo tempo que hoje esses momentos são histórias de um líder amado por seus cidadãos, mesmo que nesse exato momento ele esteja de saída de uma crise ainda em andamento desde que tomou o poder, oito anos atrás, o que também é um feito e tanto do ponto de vista de retórica, ao conseguir governar mesmo estando em um período negro da economia e conseguindo o apoio da população movida a emoções baratas. Justamente por isso o discurso realizado em uma igreja (para a religião chamada democracia) é o momento mais forte do longa, pois demonstra de maneira sucinta como apenas palavras de fé aliadas com um movimento que sugere o poder estratégico e político de Obama para tentar resolver os problemas da maneira com que eles conseguem ser resolvidos em qualquer tipo de conflito de ideias: trazendo todos ao seu favor.

Por outro lado, o filme sugere que os valores que ele traz consigo foram em boa parte obtidos de pessoas que ele valoriza, sendo o exemplo mais óbvio da história a própria Michelle, o que indica também que, além dos olhares marotos para as curvas da moça (uma referência dos “flagrantes” dos dias de hoje), Obama também estivesse de olho em sua mente, além de parecer que quanto mais tempo fica próximo da moça mais a admira como ser humano. Isso fica bem óbvio nos diferentes momentos em que ele está visivelmente bem dela (que é uma mulher alta), seja sentados em um parque ou andando por degraus na costa (em diferentes níveis), o que também sugere aquela máxima que “por trás de todo grande homem sempre há uma grande mulher” (e aqui não estamos falando apenas de estatura física).

E é claro que a história precisa, de todas as maneiras possíveis e imaginárias, colocar a questão do racismo norte-americano, a cultura afro e seus derivados. Só que ele coloca essas questões de maneira tão natural, que é como se elas fossem parte integrante do que esses dois personagens da vida real de fato são. Além disso, há beleza em todos os momentos, seja olhando impressionantes quadros no museu, ou fazendo parte de uma dança típica, ou até no meio de uma conversa sobre o motivo da revolta de um personagem em um filme recém-lançado de Spike Lee na época: Faça a Coisa Certa (e ver citado Roger Ebert elogiando o filme torna tudo apenas ainda mais instigante, sem contar que a prática dos cinemas de rua de colocar a crítica na íntegra dos filmes que estavam em cartaz indicava um nível de interesse por arte muito acima do que temos hoje).

Seja no campo das ideias ou nos aspectos técnicos, que ainda vêm embalados com uma trilha sonora saudosista e inspirada para cada momento do casal nesta bela tarde de versão, ou até a fotografia clara, com cores pálidas, sugerindo leveza e iluminação de seus personagens, “Michelle e Obama” é uma agradabilíssima surpresa não apenas em biografias, como em romances e, até certo ponto, filmes políticos. Não dá para aproveitar todo o filme sem levar em conta esses três gêneros.

★★★★☆ Southside with You. USA, 2016. Direction: Richard Tanne. Script: Richard Tanne. Cast: Tika Sumpter (Michelle Robinson). Parker Sawyers (Barack Obama). Vanessa Bell Calloway (Marian Robinson). Phillip Edward Van Lear (Fraser Robinson). Taylar Fondren (Janice). Deanna Reed-Foster (Bernadette). Jerod Haynes (Tommy). Gabrielle Lott-Rogers (Rafiqa). Preston Tate Jr. (Kyle). Edition: Evan Schiff. Cinematography: Patrick Scola. Soundtrack: Stephen James Taylor. Runtime: 84. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Biography. Category: movies Tags: cabine

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