Minhas Mães e Meu Pai

Wanderley Caloni, June 8, 2011

Annete Bening é uma atriz talentosa. Seu único trabalho que acompanhei de perto, Beleza Americana, foi um exercício de neurose formidável, ainda que equivocado em sua exagerada conclusão final (culpa do roteiro?). Porém, através dele é possível ter uma noção muito boa das capacidades de interpretação de Bening tendo como personagem pessoas com algum descontrole emocional que a leve a influenciar negativamente a vida dos seus próximos.

É com essa impressão inicial que comecei a assistir Minhas Mães e Meu Pai, um filme que apresenta uma família inusitadamente normal, considerando que não há nela a figura paterna, mas a figura dupla da mãe, Nic (Bening) e Jules (Moore). Ambas resolveram ter cada uma um filho através de inseminação artificial, formando assim o casal de meio-irmãos Joni (Wasikowska, formidável) e Laser (Hutcherson). Essa família aparentemente normal, mesmo que frequentemente sufocada pela superprotetora Nic, começará a se desestruturar emocionalmente com a vinda de seu novo membro Paul, pai genético escolhido por ambas as mães para a gravidez planejada.

O mais interessante na atuação de Bening é que, através da sua visão de personagem, que vive um período de turbulência em sua vida afetiva, podemos enxergar a transformação das pessoas ocorrendo paulatinamente conforme acontecimentos cada vez mais inquietantes para Nic começam a ocorrer com seus entes. Porém, o mais curioso é notar que, a despeito da estrutura familiar atípica, o drama que os envolve poderia acontecer com qualquer grupo de seres humanos com laços afetivos semelhantes, e o fato do filme conseguir transmitir essa sensação acaba se tornando sua maior virtude.

Já a personagem de Julianne Moore consegue justamente o efeito contrário: o equilíbrio da relação entre as duas e de uma maneira geral da família como um todo repousa sobre os ombros dela, mesmo que ela mesma não identifique isso. Essa dualidade no espectro emocional de ambas repousa nas mãos certeiras de Lisa Cholodenko que, sabendo detectar a química presente nas conversas de mesa, sempre enquadra a dupla de mães nos momentos em que as emoções de ambas são relevantes para a trama, sendo que torna-se muito simples para o espectador detectar essa relação díspar entre o casal de lésbicas.

Aliás, os diálogos se tornam mais um ponto positivo do filme: conseguimos assimilar rapidamente a personalidade de cada um apenas participando de uma das inúmeras conversas à mesa. Porém, os mesmos diálogos denunciam o aspecto estático na evolução das personagens, e é triste constatar que, diferente do que poderia se supor pela própria história, não existe mudança alguma na dinâmica do grupo do começo ao fim.

O que tristemente constatamos é que o roteiro prefere usar sua única premissa-título como força para todos os eventos, mas nunca se preocupa em explorá-la de maneira corajosa. A constatação final é que, apesar de „tudo„, esse acaba sendo, sim, mais um exemplar clichê de filmes de drama da família americana. Sequer existe uma conclusão satisfatória para o conflito principal, pois o roteiro coloca toda sua confiança apenas na interpretações dos atores e não em suas decisões e diálogos, que teriam por função básica uma resolução mais digna do empolgante conflito principal.

Imagens e créditos no IMDB.
Minhas Mães e Meu Pai ● Minhas Mães e Meu Pai. The Kids Are All Right (USA, 2010). Dirigido por Lisa Cholodenko. Escrito por Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg. Com Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Zosia Mamet. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-06-08. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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