Minhas Tardes com Margueritte

Mar 29, 2015

Imagens

Esse é um filme doce e maniqueísta. Porém, seu maniqueísmo só se reflete nos personagens secundários, aqueles que são criados para criar tensão e colorir o universo de Germain Chazes, um faz-tudo que vive em um trailer. Todos zombam de Germain por ser ignorante, e sua ignorância é explicada através da diferentes flashbacks de sua infância onde ele é maltratado pelos professores e por sua própria mãe, que o considera um acidente. A relação entre os dois é a base para entendermos a dinâmica de sua nova amizade com Margueritte, uma senhora que se senta à tarde na praça da cidadezinha onde moram para observar os pombos e realizar uma atividade para ela prazerosa e para Germain uma verdadeira tortura: ler. Porém, à medida que ele aprende que ler é enxergar o mundo à sua volta através de símbolos cuja tradução lhe foi negada desde criança, Germain passa a se tornar o que chamamos de homem completo, o que é interessado em sua vida e busca seus próprios interesses. É capaz de se soltar das amarras nefastas da ignorância graças ao convívio com uma pessoa que, apesar de estar no fim da vida, ainda tem muito a oferecer a qualquer um que tiver a paciência de parar e ouvir.

O filme de Jean Becker baseado em um livro tenta com uma certa insistência te levar às lágrimas, mas sem sucesso. No entanto, as interpretações do gigantesco Gérard Depardieu e da mirrada Gisèle Casadesus funcionam em uma dinâmica invejável, pois apesar de todos os clichês algo novo é criado. Não dá para negar que é o próprio Jean Becker que consegue a façanha, que junto com seu editor, Jacques Witta (trilogia das cores), liga as cenas com uma fluidez que faz a história passar bem rápido sem nunca se esquecer de pausar nos momentos importantes. Dessa forma, o dia-a-dia de Germain indo no bar, na feira e na praça pode estabelecer uma rotina de forma eficiente, mas quando este resolve abrir o seu presente de noite, um dicionário, e procurar nomes próprios, o filme dá todo o tempo do mundo para respirarmos junto com a curiosidade (e a frustração) de Germain.

Obviamente concluindo no formato dramalhão – e ainda sugerindo um passado humanitário para Margueritte – Minhas Tardes com Margueritte já conseguiu ficar nos trilhos por um bom tempo de projeção a ponto daquelas duas pessoas serem importantes demais para deixarmos de lado seus destinos. Dessa forma, não importa o resgate no hospital, tanto quanto não importa uma morte relevante. O que importa é que continuemos a olhar para esse mundinho por um pouco mais de tempo, só para sairmos satisfeitos de como as coisas se encaixam com uma perfeição suspeita, mas cativante.

Wanderley Caloni, 2015-03-29. Minhas Tardes com Margueritte. La tête en friche (France, 2010). Dirigido por Jean Becker. Escrito por Jean Becker, Jean-Loup Dabadie, Marie-Sabine Roger. Com Gérard Depardieu, Gisèle Casadesus, Maurane, Patrick Bouchitey, Jean-François Stévenin, François-Xavier Demaison, Claire Maurier, Sophie Guillemin, Mélanie Bernier. IMDB.