Miss Julie

O que mais gosto do início de Miss Julie é o sotaque irlandês de Colin Farrell. Esse sotaque é rebuscado, bem trabalhado. Mas não é só isso que o torna magnético. A forma com que Farrell explora apenas através da voz e de suas expressões as amarguras da vida do seu personagem, John, um serviçall que trabalha para um Barão que era o vizinho de seu pai, é o tipo de coisa que faz com que Miss Julie seja um trabalho intimista no mínimo curioso.

Fora isso, temos a própria personagem-título, interpretada por Jessica Chastain com uma entrega que a torna quase invisível. Ela é de uma ingenuidade que contorna seu próprio comportamento lascivo. O contraponto com a cozinheira Kathleen (Samantha Morton) quase não é explorado, mas suas formas físicas sim, e é tão válido quanto.

Adaptado de uma peça de teatro, infelizmente o filme não consegue perder sua teatralidade e embarcar em sua nova mídia, o Cinema, que precisa de uma ação bem encadeada para conseguir se fazer presente, nem que essa ação seja meramente intelectual, fruto dos diálogos ácidos trocados entre os personagens. A primeira metade do filme se sai bem nesse quesito, explorando de todas as formas a época e a maneira de pensar dessa pessoas e de toda uma sociedade. Infelizmente a segunda metade explora muito mal seus personagens, fazendo os dois principais andarem em círculos e mudarem de tom, ideias e opiniões às vezes até na mesma conversa. Isso enfraquece o longa, que termina em um desfecho mais curioso que trágico. Aquela curiosidade normal de espectadores assistindo um filme de época, tentando entender como aquelas pessoas conseguiam viver sob tantas restrições morais.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-05-17 imdb