Missão: Impossível - Nação Secreta

É brilhante e até comovente perceber como o gênero de espionagem moderna que corre nas veias dessa franquia se atualiza a cada novo trabalho, e como “Rogue Nation” se sai infinitamente melhor que o último James Bond de Daniel Craig (“Spectre”). Mesmo em momentos óbvios como a “missão impossível” tradicional de todo filme o filme consegue manter a tensão e sua eficácia, marca de um filme verdadeiramente competente em seu gênero: quando sabemos o que vai acontecer, e mesmo assim funciona maravilhosamente bem.

Roteirista de Os Suspeitos (o pequeno clássico de 96), Christopher McQuarrie participou pontualmente em alguns trabalhos no Cinema como autor e diretor, muitos deles atualmente com Tom Cruise. Sua participação, portanto, no próximo filme da franquia Missão Impossível é tão natural quanto inevitável. Tendo Cruise também como produtor executivo, essa é uma sequência de filmes tratada com esmero desde sua fundação, e que conteve diferentes visões em seus quase 20 anos de história, sempre dirigidos por nomes interessantes: Brian De Palma, John Woo, J.J. Abrams e Brad Bird.

E quando falo esmero me refiro a praticamente todo aspecto técnico da produção. Como uma trilha sonora que sabe escolher quando usar música-tema, mesmo que seja para fazer gozação (quando Tom Cruise tenta passar por cima de um carro após uma experiência de quase-morte), além de usar a eficiente sequência da ópera (algo tradicional na série e em filmes do gênero) em momentos mais reflexivos. Mais ainda, omite qualquer música artificial quanto entende que apenas som dos carros e motos em uma perseguição é o suficiente para manter a tensão em alta.

E o que dizer da montagem, que nas mãos do excelente Eddie Hamilton (X-Men: Primeira Classe, Kick-Ass, Kingsman), transforma uma série de situações, cenários, ações paralelas e lutas em momentos de puro deleite visual pela sua fluidez e cadência exemplares.

Tudo isso auxilia em muito uma trama até que complexa, mas que dá sempre ao espectador informações suficientes para que ele acompanhe a linha de raciocínio por fora do que os personagens sabem até o momento. A história se preocupa menos em soar esperto e mais em soar autêntica. Até a velha questão de sempre haver um novo vilão, e tudo ser uma repetição inesgotável, é uma forma de apontar o dedo para si mesmo de maneira a parar a ação e questionar os próprios atos. E o quão libertário é um filme que contêm uma fala que diz que tanto faz o governo ou facção, tudo são apenas escolhas do que acreditar?

As atuações, mesmo as mais breves, são pertinentes e divertidas. Todas as pontas funcionam. Até um “hum” do veterano Ving Rhames é infinitamente mais significativo que uma frase que verbalize a ameaça caso alguém traia sua confiança. A parceria entre Cruise e Simon Pegg funciona em seu máximo, e mesmo que Pegg se mostre repetitivo em seus trejeitos em certo momento, as melhores tiradas de humor, as observações ingênuas de seu personagem e mesmo sua lealdade incondicional ao amigo são tocantes na medida certa.

Por fim, o arco final amarra tudo de uma maneira menos episódica e mais argumentativa. “Rogue Nation” consegue justificar a existência de “medidas desesperadas” sem parecer aliar-se a governos e corporações, mas antes como defesa de “vidas inocentes”. Pode não ser o mais honesto dos argumentos, mas é o mais forte que a franquia consegue chegar em tempos onde o estado perde a razão em nome de uma paz que ele parece sempre tornar inalcançável, e em que a transparência atual (graças à internet) torna cada vez mais gritante a parceria imoral entre dinheiro e poder.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-11-22 imdb