Missão: Impossível

Wanderley Caloni, March 17, 2019

O primeiro “Missão: Impossível” é, em poucas palavras, velho. Em mais algumas palavras, há monitores de tubo, cabines telefônicas como único recurso de comunicação e filmes VHS na primeira classe de um avião. Estamos em 1996 e Brian De Palma aceita o projeto de transformar uma série televisiva farofa em algo além de sua música-tema inesquecível. E através de uma reviravolta básica, que fundamentou todos os plots da série no futuro, ele inicia uma franquia com chave de ouro.

Eu me lembro que fui assistir ao primeiro Missão Impossível no Cinema. Só não lembrava que fazia tanto tempo assim. E também achava o plot muito confuso aos dezesseis anos. Hoje eu percebo que a cena-chave do filme é o momento em que Ethan Hunt, único sobrevivente de uma missão, está ouvindo um colega dizer quem é o traidor de sua equipe. Acompanhamos o sujeito falando e vemos Hunt reproduzir os momentos em sua cabeça, mas não da forma como ele diz e sim incriminando o tal sujeito. Essa cena é a prova de que é possível ser elegante mesmo em filmes de ação e espionagem. Que não é preciso ofender a capacidade intelectual de seus espectadores. Mesmo que ele tenha dezesseis anos.

Mas verdade seja dita: o filme envelheceu. Já não é a mesma coisa a cena de um helicóptero entrando no túnel do trem Londres/Paris. Soa absurda demais e possui efeitos datados demais para apenas 20 anos. Muita coisa mudou. Algumas para melhor, outras para pior.

Um exemplo do que mudou para pior é justamente a facilidade com que efeitos são criados hoje em dia. Ainda que em Missão Impossível seu grande astro (e produtor) Tom Cruise se arrisque a fazer suas cenas sem dublê todo o resto da filme é estilizado com uma camada de irrealismo que reflete muito bem o que estamos sentindo hoje em dia com essa Marvel e seus filmes esquecíveis de centenas de milhões de dólares.

Repare, por exemplo, a diferença do significado do suor no rosto dos personagens. Hoje é em alta definição e conseguimos imaginar ele saindo de um saquinho fabricado por Hollywood. Neste primeiro filme Tom Cruise escala a tubulação do ar condicionado usando ventosas e sua força física. Ele sua como um porco, mas é um suor legítimo, pois ventosas por si só não garantem que ele consiga chegar onde quer. O esforço é visto na tela desse primeiro filme em momentos que não existem mais nos últimos, onde todos fazem parkour, musculação, cross fit e cujo suor é limpo, álcool-free e vegan.

Já no quesito roteiro, David Koepp faz um excelente trabalho nos entregando material que não precisa de quase nada para funcionar. Quando os personagens de Jean Reno e Tom Cruise, Krieger e Ethan Hunt, debatem calorosamente a respeito de quem tem a fita com os dados valiosos, um truque de mágica é o efeito, mas é o discurso de Hunt que convence Krieger. O que acontece logo após Krieger se retirar é mais uma prova de respeito pelo espectador, mantendo o nível de interações entre os personagens sempre alto.

A CIA é um monte de caras engravatados com cara fechada. Há autenticidade ainda nas interações, até por que não há tantas traições duplas acontecendo por aí, algo que foi se tornando enfadonho na série e quando ela mesma resolveu abandonar e partir para o cinismo descarado. Este é um momento ingênuo da série (de filmes) e é um verdadeiro prazer juvenil voltar a vê-lo após entender através de Efeito Fallout que desarmar uma bomba para salvar o mundo não basta: é preciso ter um bom motivo para o herói.

Qualquer um salva o mundo hoje em dia, de James Bond a Austin Powers. O que realmente me move a ir ao cinema é torcer junto de quem sabe por que o mundo vale a pena ser salvo. E esses heróis estão em falta. Portanto nada como uma velha trama local como em “Missão: Impossível”, que não envolve salvar o mundo, mas o velho feijão-com-arroz de ajustar a bússola moral de acordo com a realidade diante dos olhos. Os efeitos estão datados, mas o que eles mostram é eterno.

Imagens e créditos no IMDB.
Missão: Impossível ● Mission: Impossible. EUA, 1996. Dirigido por Brian De Palma, escrito por David Koepp a partir da série de TV de Bruce Geller. Com Tom Cruise, Jon Voight e Emmanuelle Béart. Ving Rhames está desde o começo na pele de Luther. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-17. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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