Mistress America

Quando assisti a Frances Ha notei o uso de Nova Iorque, diálogos rápidos e a óbvia homenagem a Woody Allen, com uma protagonista adoravelmente perdedora. Agora em Mistress America essa protagonista volta em uma nova roupagem, em cores, e indiretamente serve de combustível para uma futura escritora na faculdade, que aprende que Aristóteles, mais do que matemática, também fala diretamente sobre os seres humanos.

E é aqui que o filme me pegou. Não pelos diálogos inteligentes, divertidos, rápidos e alguns inesquecíveis (meu favorito acho que é “eu sou autodidata; essa é uma das palavras que eu me ensinei”). Isso ajuda, mas não. Também não pela edição dinâmica de Jennifer Lame, colaboradora habitual do diretor, que consegue convergir os enquadramentos simétricos de Noah Baumbach com uma beleza estética que transforma as cenas em um palco de teatro dançante e cinematográfico.

Tudo isso ajuda, mas não encanta. O que me encanta mesmo em Mistress America é essa discussão interna a respeito do papel da mulher, ou dos seres humanos, mas principalmente da mulher, e se é relevante que existe um papel. Se por um lado as críticas que saem do papel da jovem Tracy (Lola Kirke) acompanham o que aprendeu sobre filosofia aristotélica, por outro sua fascinação pela nova amiga e que futuramente será sua meia-irmã bate de frente com a temática de Frances Ha: como os perdedores constroem histórias infinitamente mais interessantes do que os vencedores.

E isso vira sintomático principalmente na última parte do filme, onde objetivos são rearranjados menos por conveniência e mais por uma constatação óbvia: a vida não tem roteiro pré-planejado. O fato disso transparecer em um filme que te joga a todo minuto pela veredas do maniqueísmo intelectual em forma de diálogos rápidos e pensantes é uma virtude que pode passar despercebido pelos espectadores desse Frances Ha recauchutado, mas que é o que torna Mistress America original em cima de um outro trabalho. Vale a pena a nova jornada.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-10-26 imdb