Moana: Um Mar de Aventuras

2017/01/07

É fascinante constatar como os trabalhos anteriores da equipe de criação da Disney servem de pavimento para criações cada vez mais ambiciosas. E aqui o ponto alto de Frozen, quando Elsa se transforma no que sempre foi, vira um simples rascunho da força da música de Maoma, onde ela não apenas identifica (e assume) quem realmente é, mas quem seu povo deve ser. Em ambos é a força do indivíduo que prevalece, mas só na segunda essa força ganha um panorama dentro de uma comunidade, da sua história e tradição e, principalmente, de sua própria sobrevivência.

O filme, dirigido e escrito basicament pela equipe responsável por A Princesa e o Sapo, Aladim e diversos desenhos à mào da Disney, foi fruto, como sempre, de uma pesquisa extensiva e imersiva dos povos da Polinésia, suas crenças, seu ponto de vista e seus valores. O resultado é um trabalho sólido, que estabelece como o drama maior a coragem de uma líder nata em enxergar um pouco além de todos os outros (incluindo o líder atual, seu próprio pai) e ao mesmo tempo abraçar um chamado adiado por muitos anos: se aventurar no oceano.

Esta é uma história pautada em uma lenda, em que um semideus rouba o coração de uma ilha e acaba amaldiçoando tudo em sua volta. Essa lenda é rapidamente contada e através de esquemas ágeis, somos levados visualmente à história de um pequeno povo em uma ilha que nunca se arriscou a ir além dos recifes de corais. Agora, com a natureza em sua volta morrendo, o tempo urge para que Moana atenda à chamada do oceano e parta para a aventura de sua vida.

Os estúdios Disney sempre foram exemplo de qualidade na animação. Porém, ultimamente, seus criadores estão não apenas sempre à frente de si mesmos e dos outros estúdios em qualidade técnica, como narrativa, também. Se por um lado percebemos os movimentos caóticos e naturais das mãos de uma criança que mal consegue andar, caminhando dentro do oceano que se abre aos poucos, e nesta mesma menina, quando crescida, vemos seu pulmão respirando através dos detalhes do movimento do seu tórax, além de um tom de pele impossivelmente realista (ainda que atrás do vale da estranheza). Enquanto a tecnologia é usada a favor das animações, cada vez mais elas se parecem com filme interpretados por humanos. E, de certa forma, a maioria já é, seja por captura de movimento (e expressão) ou a velha dublagem.

E por falar em dublagem, a equipe original de dubladores é constituída quase toda por nativos das ilhas, e a protagonista é interpretada pela estreante Auli’i Cravalho, com apenas 14 anos na época. Se trata da princesa Disney mais jovem, e a primeira princesa desta etnia (Lilo e Stich não valem). Até Dwayne “The Rock” Johnson veio de descendência havaiana. Há uma preocupação crescente da produtora em cada vez mais expandir suas etnias e sua coleção de histórias étnicas e mitológicas de diferentes povos, o que é um delírio para a esquerda, mas também para todos que apreciam obras de arte que fujam da mesmice.

E nesse caso, apesar da história ser simples, previsível até, e sem muitas reviravoltas, ela é direta, empolgante, e desenhada/dirigida/escrita para se tornar um épico. E antes mesmo de sua metade, já consegue isto. Seja pela sua música-tema ou sua construção musical pautada em ecos, coros e a grandiosidade dos instrumentos que evocam acontecimentos que estão escrevendo a história de um povo nesse momento. É curioso, até, que após a saída de Moana da ilha, não vejamos mais seus habitantes, pois eles não são importantes. São os indivíduos que fazem a diferença no longo prazo, e é Moana a peça-chave de toda a aventura. Mesmo com a presença de um semideus, é ela a força-motriz de tudo que acontece na história. E curioso que ainda assim os criadores insistem em inserir, muito apropriadamente, a influência de sua família (sua avó) e da própria natureza/destino (o oceano dando uma ajudinha).

Com as aventuras intermediárias flertando perigosamente em soar fases de um video-game (já que nem os piratas nem o vale dos demônios se insere de forma orgânica na história, e começam e terminam no mesmo ato), ainda assim Moana consegue manter sua estrutura principal intacta, o que é mais importante para o filme. É a paixão trazida desde o começo que cria uma lenda, uma história inesquecível e um nível de energia que vai um pouco além dos poderes de Elsa, um pouco mais do que a ousadia de Valente, e muito, muito mais do que uma princesa da Disney jamais fez.

★★★★★ Título original: Moana. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Ron Clements. Don Hall. John Musker. Chris Williams. Roteiro: Jared Bush. Ron Clements. John Musker. Chris Williams. Don Hall. Pamela Ribon. Aaron Kandell. Jordan Kandell. Elenco: Auli'i Cravalho (Moana). Dwayne Johnson (Maui). Rachel House (Gramma Tala). Temuera Morrison (Chief Tui). Jemaine Clement (Tamatoa). Nicole Scherzinger (Sina). Alan Tudyk (Heihei / Villager #3). Oscar Kightley (Fisherman). Troy Polamalu (Villager #1). Edição: Jeff Draheim. Trilha Sonora: Opetaia Foa'i. Mark Mancina. Mark Mancina. Lin-Manuel Miranda. Duração: 107. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Animation. Tags: cinema oscar2017

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