Mob Psycho 100

May 28, 2018

Imagens

Mob Psycho 100 sofre do mesmo problema de Death Note: a primeira metade é fascinante e a segunda metade é quase insuportável. Isso porque a grande sacada da série – um paranormal super-poderoso que tem ambições onde o seu poder é inútil – se trai totalmente em um momento onde seu irmão é envolvido na trama principal e todos os valores do protagonista são automaticamente descartados apenas por capricho de um roteiro que pega uma excelente ideia e transforma em mais uma daquelas aventuras com pessoas poderosas que falam demais. Não que você não tivesse visto isso antes em qualquer outro anime do passado.

Essa traição se torna ainda pior quando lembramos do conflito entre ele e um estudante de outra escola que também é um paranormal, mas que usa seus poderes para proveito próprio. A conclusão a que ambos chegam e toda a evolução deste episódio o torna o melhor da série (anote: é o quinto: Ochimusha - Psychic Powers and Me), e a partir daí infelizmente não se volta nunca mais para o equilíbrio entre humor, ação e auto-crítica sobre animes de super-poderes que prometia ser uma versão alternativa, mais light, de One Punch Man (também criação do mesmo autor de mangás, One).

A grande vantagem da versão anime de Mob Psycho é que ela não é a versão live action lançada em parceria com a Netflix dois anos depois. Com baixo orçamento e tentando emular a versão mangá/anime, o live action carece de qualquer bom senso em adaptar a história reduzindo personagens e cenas com muitos efeitos, tornando seus personagens secundários (e até o próprio herói) meras sombras de suas versões animadas.

A fantástica criação de Mob termina precisamente no episódio seis (Discord - To Become One), onde através do abuso de poder dos membros do grêmio estudantil um caça-às-bruxas de bullies se torna corrupto por dentro, o que gera uma crise de consciência no irmão mais velho/mais novo do herói da história (é que uma hora ele parece ser o mais velho, mas em outra é o mais novo, em claras contradições narrativas). Há um longo hiato em um subplot que cresce para dar luz a uma corporação do mal (claro) conhecida como Garra e que utiliza paranormais para… enfim, o mesmo blá-blá-blá de sempre. Quem se importa. Personagens completamente esquecíveis falando uns para os outros como são poderoso e talz, lançando magias genéricas demais até para serem esteticamente interessante, e uma infindável série de sete episódios que irão fornecer uma, ou no máximo duas, cenas memoráveis envolvendo novamente o mestre de Mob e um ou outro fechamento interessante da história.

Mob Psycho 100 é além de uma cópia alternativa baseada no sobrenatural de One Punch Man, é uma cópia que se corrompeu pelo caminho da adaptação do que parece ser uma longa história no mangá (até onde eu tinha visto havia seis volumes). Muito texto com pouca trama gera um sentimento de poderia ser melhor muito antes dele atingir um clímax em sua história maior. Ele se lança como ideia inicial muito boa e termina se sabotando ao se mover lentamente para o medíocre e o lugar-comum. Há um momento que um personagem diz que apesar de tantos poderes somos todos ordinários. Bem, talvez essa seja uma meia-verdade dita por alguém que está se referindo não a personagens genéricos que se dizem poderosos, mas a toda série de animes deste gênero, que também se dizem muito poderosos, mas no final das contas se rendem à insossa e nunca interessante mediocridade.

Wanderley Caloni, 2018-05-28. Mob Psycho 100. Teleplay por Kei Kunii e Reiko Yoshida baseados no mangá de One. Com Tatsuomi Hamada, Atsushi Arai, Masayuki Deai. IMDB.