Moscow Belgium

Wanderley Caloni, September 24, 2010

Essa é uma “comédia romântica” dramática que conta a história de uma mulher recém-separada que quer viver uma vida normal, mas bate o carro em um caminhão e conhece um italiano charmoso que a convida para sair. O resto é passado em uma longa história onde veremos, com nossos olhos incrédulos, a maneira deliciosa que a narrativa nos conta a evolução daquela mulher recém-separada que está literalmente acabada na primeira cena, no corredor escuro e fechado, com a câmera mais alta, fazendo compras no supermercado, e a outra, radiante, caminhando em direção ao nascer do sol do lado dos trilhos, abertos e livres.

Sempre com a câmera tremendo, a ansiedade e a tensão são intensificados de maneira realista e quase documental, embora tudo com um clima bem agradável e piadas inteligentes que desenvolvem o perfil de cada personagem e determina competentemente a função de cada um em torno da grandiosa protagonista que vemos evoluir durante toda a filmagem.

Não só isso, algumas cenas e cenários são escolhidos a dedo, em sequências econômicas e expressivas ao extremo, como quando vemos o namorado dela bêbado pela primeira e única vez brigando com sua ex-mulher e seu amante; note como a câmera treme de forma diferenciada, com o foco se perdendo fácil e cortes não-lineares.

Por outro lado, veja como a luz que incide sobre o casal que reata na penúltima cena demonstra toda a fragilidade de ambos, tanto no choque entre eles (ela dá um soco no nariz dele) quanto na pureza deste (ele beija o punho que ela machuca no ato).

Mas se uma cena ou outra nos faz comovidos tão facilmente, apesar das posições e movimentos brilhantemente escolhidos pelo diretor, o grande “trunfo” de todo filme é a atriz principal, que constrói de maneira inequívoca uma personagem desatada com o que existe em sua volta, que insiste em comer as coisas com mostarda e não sente o gosto de nada (outra metáfora usada de maneira tão inteligente, como quando ela volta a usar mostarda quando volta com o marido). Enfim, uma mulher que deseja e tenta ardentemente ter uma vida normal, mas nunca consegue, e se sente frustrada e perdida por isso. Porém, aos poucos ela vai entendendo a dinâmica de sua vida a partir de suas experiências, decide agarrar com convicção o que tem aprendido e escolhe o que disse que sabia desde o começo da vida: ser feliz. Tudo isso sem explicações, sem diálogos expositivos, mas apenas com pequenas expressões e gestos tão bem trabalhados.

Imagens e créditos no IMDB.
Moscow Belgium ● Moscow Belgium. Aanrijding in Moscou (Belgium, 2008). Dirigido por Christophe Van Rompaey. Escrito por Jean-Claude Van Rijckeghem, Pat van Beirs. Com Barbara Sarafian, Jurgen Delnaet, Johan Heldenbergh, Anemone Valcke, Sofia Ferri, Julian Borsani, Bob De Moor, Jits Van Belle, Griet van Damme. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-09-24. Texto escrito por Wanderley Caloni.


Quer comentar?