Mr Robot: Terceira Temporada

Feb 27, 2018

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Seria um spoiler dizer que esta temporada de Mr. Robot terá ou não, como as duas temporadas anteriores, uma reviravolta no final? Bom, é como esse novo personagem diz: uma história pode começar morna, ter um meio medíocre, mas o final… precisa ser surpreendente. Então faça as contas.

Mas Mr. Robot está se tornado o trabalho hermético e confuso que gostaríamos que ele fosse, então mesmo que houvesse uma reviravolta, ela seria sutil demais para ser percebida. Nós, nerds, não queremos apenas um thriller para nos divertir, mas um universo que faça uma referência ao nosso, com crise financeira, jogos políticos, terrorismo, hackerismo de primeira e problemas psicológicos. Este é o mundo que nos acostumamos a viver. Se não houver hacks em computadores e na mente humana não vale a pena ser assistido.

E este é o mundo dos bits, dos bauds e dos neurônios danificados. É o mundo cínico, sombrio e sem esperança pintado pela série. Salvar o mundo, não salvar o mundo, que diferença faz? Consciência, não-consciência, qual o problema em uma outra pessoa viver junto de você? Não somos há muito tempo as criaturas simples criadas por deus como pensávamos. Hoje nem somos mais indivíduos.

O que me incomoda na série é essa necessidade de dois atores para duas personalidades da “mesma” pessoa. Às vezes penso que pode ser por limites da atuação de Rami Malek. Mas logo essa dúvida se esvai quando vejo a próxima belíssima cena que ele nos brinda com seu trejeito paranoico-depressivo. Por outro lado não consigo imaginar a série sem Christian Slater e seu contraponto irreverente tão necessário para chacoalhar o universo de Elliot.

E esse embate eterno que eu tenho é precisamente o dilema de Mr. Alderson, que é chamado de Mr. aqui muitas vezes e Alderson não é coincidência, mas uma referência a Matrix (há uma cena que é uma homenagem). Elliot consegue viver também sem Mr. Robot? Não é precisamente ele que o mostra que o mundo não é o que parece, tal como um Morpheus dizendo para Neo em seus sonhos algo inacreditável?

Esta temporada conta mais do mesmo, mas parece ser justamente o que procuramos: um escape do mundo real com traços perenes desse mesmo mundo. Onde moedas digitais vão começar a servir aos propósitos políticos e veremos como políticos idiotas (como Trump) podem (e devem) ser eleitos. Toda a trama se desenvolve para contar as partes que faltavam. É quase um prólogo.

Há o crescimento de muitos personagens que começam a se tornar mais interessantes que apenas meros coadjuvantes, como Bobby Cannavale, que chega chegando com seu vendedor de carros falastrão. A personagem que se torna ligeiramente forçada é Angela, que apesar da boa atuação de Portia Doubleday vai se tornando cada vez mais inverossímil. Me lembrou a irmã de Dexter

A dupla imbatível é mesmo Rami Malek e Christian Slater. Ou deveria dizer o trio? O diretor/idealizador Sam Esmail Eu Estava Justamente Pensando em Você consegue melhorar sua técnica de direção ao extremo. Afeito a brincadeiras e truques, seu uso de enquadramentos aqui beira o perfeccionismo. “Mr. Robot”, apesar de ser um jogo mental, ganha outros contornos artísticos bem articulados, como o episódio inteiro em plano-sequência do ataque ao prédio da E-Corp, uma aula de cinema.

Sempre disposto a não tornar fácil para o espectador acompanhar Elliot em sua jornada do herói/anti-herói, Esmail impulsiona o que há de melhor na série nesta temporada e apesar dos furos e deslizes do roteiro se aproxima mais ainda do universo idealizado do hacker. Não meramente o hacker de computador, mas o hacker da vida, que quer entender tudo, e que se aproxima cada vez mais da dura realidade…

Wanderley Caloni, 2018-02-27. Mr Robot. EUA, 2015. Criado por Sam Esmail. Com Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday. IMDB.