Mr. Robot

Finalmente uma série que retrata o hacker de uma maneira realista. Mais do que isso: retrata o hacker inserido na realidade que vivemos hoje, nesse exato momento. E, por que não, alguns meses à frente?

Mr Robot é uma série idealizada por Sam Esmail que está finalizando sua segunda temporada, em uma continuação tão profética quanto o nível subversivo das ideias contidas em seu original (a primeira temporada). De certa forma, embora com ótimos episódios e um roteiro instigante, a segunda temporada tenta fazer exatamente o que a Evil Corp faz na economia: vende o problema e a solução. E no caso de uma série televisiva, o problema são séries repetitivas que reafirmam o status quo. A solução é uma série que emula a revolta contra esse sistema. Dessa forma, a contracultura consome exatamente como os que nadam a favor da maré, mas se sentindo partes de uma revolução… a revolução do socialista de iPhone.

Mas eu falei iPhone? Bom, isso é um dos pontos positivos da série. Ela não se limita em usar termos genéricos ou colocar as “polêmicas” opiniões da sociedade hacker na boca dos personagens. Dessa forma, já foi falado que eles odeiam Facebook, que Android é muito melhor que Apple, que iRC e outras tecnologias submersas são mainstreaming para eles… e que, claro, odeiam as grandes corporações. Em específico a E. Corp, apelidada (e vista durante todos os episódios) pelo herói da história, Elliot Alderson (Rami Malek), como Evil Corp (evil == maligno).

Não é só de opiniões fortes que reinam no universo de Mr. Robot. Os comandos, ferramentas e técnicas usadas para hackers sistemas é extremamente realista, mostrando que eles realmente fizeram o dever de casa. Há até um episódio em que no começo está passando o filme “Hackers”, com Angeline Jolie, e um dos personagens comenta que nunca viu um vírus ser um sistema gráfico tridimensional. Na vida real – ou seja, nesta série – as coisas são um pouco diferentes.

E por um pouco diferentes quer dizer que eles usam Linux, com comandos linha de comando, com programação Python ou Ruby que resolva rapidamente o problema. Com dispositivos como Raspberry Pi para grampear o FBI. E com diferentes formas de engenharia social, incluindo a de se encontrarem apenas fisicamente. Sabe como é, casa de carpinteiro…

Porém, voltando um pouco à primeira temporada: ela é sublime. Ela começa sua narrativa da maneira mais original possível: Elliot conversa com o espectador como se ele fosse um amigo imaginário. E dessa forma temos um protagonista que nos diz seus pensamentos e ainda é um narrador de toda a série, incluindo seus interessantíssimos personagens secundários. A primeira cena é de Elliot falando com o dono de uma cafeteria onde a internet é das melhores. No diálogo entre eles é onde se estabelece a persona de Elliot como uma pessoa não muito social, com crise de ansiedade, mas que tecnicamente e moralmente possui expertise e objetivos bem claros.

Aos poucos vamos entrando no mundo desse hacker solitários que é viciado em morfina, mas que mantém um equilíbrio através de outra droga. Ele hackeia a vida das pessoas, toda sua intimidade e mentiras, e arquiva em uma coleção de CDs com nomes de álbuns de bandas de rock, no melhor estilo Dexter Morgan. Não é por mal que ele faz isso, mas por curiosidade. Porém, quando vê a oportunidade de mudar um pouco as injustiças do mundo, ele o faz. Ele não é um ser passivo que observa o mundo desabar, mas alguém tentando se encaixar de alguma forma nesse complexo sistema chamado vida real. Quando encontra uma organização de hackers que planeja derrubar a Evil Corp, liderados por um homem com macacão onde se lê “Mr. Robot”, parece o destino ter se encontrado com a oportunidade. Uma triste história de vingança vai se delineando, para reforçar o drama.

A beleza de Mr. Robot é justamente conseguir encontrar o tom onde aquele mundo cinzento pode ser equiparado com o nosso mundo dominado por grandes corporações que usam o Estado como marionete enquanto impulsiona o consumo de pessoas escravizadas em um sistema invisível, e abraçar a visão de não-conformidade de um hacker em direção ao oposto disso. Todo hacker, quando jovem, sonha em mudar o mundo. Todo jovem que fica velho, mas não amadurece, continua sendo aquele jovem hacker sonhador, que se esqueceu de baixar o realidade.pdf e dar uma lida. Mesmo assim, a série consegue a simpatia de qualquer ponto de vista, já que é consenso entre todos que conhecem um pouco sobre política e economia que as coisas não vão muito bem. Na verdade, estão piores que nunca.

Se na segunda temporada não há muito como inovar o plot twist do ano em séries (estou falando da primeira temporada), Mr. Robot pelo menos tenta se aprofundar em alguns temas, como as motivações por trás de grandes empresários ou grandes revolucionários (os “terroristas”), assim como as motivações dos indivíduos. Sua linguagem se torna repetitiva, com seus enquadramentos meio desajeitados, com os personagens sempre muito abaixo ou deslocados do centro, e com uma trilha sonora divergente e quase formada por instrumentos de percursão ocasionais (mas sempre com ótimas músicas). Ainda assim, quando vemos um filler que apela para emular as comédias de sitcom americanas da década de 80, percebemos que há ainda uma coisa ou outra a ser explorada nesse mundo de hackerismo inteligente e realista. O mais fascinante, talvez, seja saber que o mundo ainda não acabou, e ele continua mudando.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-09-11 imdb