Mulher-Maravilha
Wanderley Caloni, 2017-06-01

Depois de uma história seríssima e enfadonha envolvendo o Homem de Aço e o Homem Morcego, agora temos… mais uma história seríssima, dessa vez envolvendo a mulher misteriosa que aparecia no filme anterior, sempre acompanhada de sua música-tema. Ela é a Mulher-Maravilha, em um filme que não é lá essas maravilhas. Mas agora, pensando bem, eu não sei se o título de “Mulher-Maravilha” serve para esta versão asséptica e ultra-estilizada de uma das poucas heroínas solo. Eu sou mais a Lynda Carter, sua fantasia colorida e sua voluptuosidade honesta.

Mas cada um com seus gostos. E ultimamente o gosto tem sido mulheres sem sal, como os recentes filmes da série Star Wars têm comprovado. Aqui ela vive entre as Amazonas, criaturas divinas que vivem escondidas em um portal mágico no meio do Triângulo das Bermudas. Elas vivem em paz, talvez porque lá não exista homem algum, e também porque faz muito tempo que qualquer uma delas precisa pegar em armas. Sua mãe até a desencoraja fazer seus treinamentos de amazonas, pois segundo ela isso atrai Ares, o deus da guerra. Porém, curiosamente, quando alguns humanos invadem a ilha paradisíaca, suas arqueiras estão prontas para atacar com seus malabarismos, que ficam tão bonitos cheios de cortes e câmeras lentas.

Os homens são soldados alemães da Primeira Guerra, e aparentemente estão seguindo um espião por metade do oceano (ele de avião, eles de navio). Esse espião é um soldado americano interpretado por um dos mocinhos da atualidade, Chris Pine (Star Trek), que diz ter encontrado uma arma terrível nas mãos do inimigo. E olha que ela nem é a bomba atômica. Ah, a ironia do destino…

Ele é salvo pela heroína, que por sua vez ajuda as amazonas. Ela nunca viu um homem, aprendeu que para os prazeres carnais homens são desnecessários, mas mesmo assim dorme com ele. Ele, por sua vez, é a sombra de um possível herói americano, já naquela época onde Capitão América nem havia nascido (e agora, Marvel?). Sendo um bom samaritano que parece ser uma das poucas pessoas envolvidas nessa guerra que enxerga toda a maldade do inimigo, e que mantém por perto um bando de amigos imprestáveis que mais uma vez, como todo filme do gênero, irá formar a trupe de perdedores que irão batalhar com honra. Nosso herói também é o primeiro a descobrir que a maldade não se combate como um vilão personificado, e esse seu ceticismo misturado com pessimismo e um certo idealismo (“o importante é o que acreditamos”) talvez o único momento sóbrio e interessante de todo o longa. Mas que infelizmente logo em seguida é traído. Sabe como é, para dar vazão à sede dos fãs que querem ver uma luta de gigantes, como já ficou de praxe entre os heróis da DC (vide Homem de Aço).

Há vários momentos em Mulher-Maravilha que nos perguntamos se já não vimos isso antes, em uma versão ligeiramente melhor e menos escura. O pelotão de quatro roteiristas – entre eles o superestimado Zack Snyder – não parece muito empolgado em criar nada que estimule a imaginação dos espectadores, e caminha a passos largos pelo mar de clichês, mesmo que lidando com deuses, tribos femininas perdidas e a chance de reimaginar uma das guerras mais sangrentas da história da humanidade. Mas infelizmente aqui não há sangue, nem sacrifício. Apenas mais fases de um jogo eletrônico que não tem fim. É isso que gera essa sensação de deja vu, em um sub-gênero onde os filmes ruins todos se parecem.

Embora eu goste das interpretações de Gal Gadot e Chris Pine, que fazem o impossível com o que lhes é entregue, há um ator que de fato levou a sério esse projeto. Não poderei falar quem é sem soltar um possível spoiler. Mas digamos que em um filme com poucas risadas e pouca emoção, ele evoca uma certa calma, um momento onde é permitido sentar e apenas aproveitar o show. Isso se você conseguir ignorar a sempre presente, alta e verborrágica trilha sonora, que acompanha o filme inteiro na esperança de torná-lo algo maior.

Não consegue. Nem seus efeitos, que ficam, assim como Batman Vs Superman, escuros demais para nosso proveito, e fáceis demais de serem misturados em cortes frenéticos nas cenas noturnas. E por falar em cortes, esse parece ser o único dom da diretora Patty Jenkins, que parece estar no projeto para fazer bonito frente às feministas. Mas se você gosta de efeitos visuais, venha eles como estiver, e é fã da figura nostálgica de uma mulher com uma armadura em um modelito estilizado com uma cara nova que nos remete a terras estranhas, este pode ser sua diversão da tarde. Tente achar uma sessão 2D para evitar forçar sua vista com tantas cenas escuras.

★★☆☆☆ Wonder Woman. USA. 2017. Direção: Patty Jenkins. Roteiro: Allan Heinberg, Zack Snyder, Jason Fuchs, William Moulton Marston. Elenco: Gal Gadot (Diana), Chris Pine (Steve Trevor), Connie Nielsen (Hippolyta), Robin Wright (Antiope), Danny Huston (Ludendorff), David Thewlis (Sir Patrick), Saïd Taghmaoui (Sameer), Ewen Bremner (Charlie), Eugene Brave Rock (The Chief). Edição: Martin Walsh. Fotografia: Matthew Jensen. Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams. Duração: 141. Aspecto: 2.35 : 1. Action. Estreia no Brasil: 1 June 2017. #cinema