Natureza Quase Humana

Os roteiros de Charlie Kaufman (Adaptação, Quero ser John Malkovich) dirigidos por Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança) nunca parecem deixar de explorar a fundo seus temas. Aqui o formato de testemunho com flashbacks é essencial para compreendermos a real dimensão dos relacionamentos entre os quatro personagens — inclusive o que morreu no processo — nessa comédia absurda que flerta com a natureza instintiva e animalesca do ser humano em detrimento à rígidas e, muitas vezes, sem sentido, regras de etiqueta e convívio social.

O filme é centrado nas figuras multidimensionais de quatro pessoas, mas gira em torno do doutor Nathan Bronfman (Tim Robbins), que, incapaz de relacionar seus estudos de etiqueta com a educação rígida de seus pais quando criança, permanece um ser imaturo ainda que civilizado. Faz experimentos em ratos forçando-os a aprender regras fúteis à mesa, como qual é o garfo para salada. Brincando com o conceito e acertando sempre o tom, o filme relaciona imediatamente a obsessão de Bronfman com seu fracasso nos relacionamentos, quando conhece a bela, mas desajustada, Lila (Patricia Arquette). A natureza do problema congênito de Lila, cuja produção acelerada de hormônios a faz estar sempre com pelos demasiados pelo corpo, é motivo de conflitos existenciais que a fazem ficar dividida entre abraçar sua natureza ou se render à sociedade. E é exatamente esse o conflito inexistente para o instintivo Puff (Rhys Ifans), um rapaz que foi criado pelo pai na selva, pois acreditava fazer parte de uma raça de primatas que, apesar do comportamento animalesco, não se compara à maldade dos humanos que, em suas palavras, são capazes de assassinar seu próprio presidente. No entanto, capturado pelo doutor, passa a ser a esperança deste ao comprovar que é possível condicionar qualquer aspecto selvagem de um ser intocado pela civilização em um cavalheiro no seu máximo refinamento e conhecimento (ainda que vazio de ideias). Fechando o quadrado amoroso está Gabrielle (Miranda Otto), assistente de Bronfman e que, fazendo ecos com “Brilho Eterno…”, é atraída pelo intelecto do seu tutor.

Nunca deixando de soar interessante e sempre utilizando detalhes não tão sutis para ligar o máximo possível as pontas da história, Natureza Quase Humana peca apenas pelo seu lado debochado, uma vez que conquista o espectador com seus conceitos, mas parece não levá-los tão a sério no ato final. Ou o ápice do absurdo do roteiro de Kaufman dessa vez não atingiu as expectativas necessárias para quebrar todas as regras, como faz de maneira brilhante em Quero Ser John Malkovich e Adaptação.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-01-19. Natureza Quase Humana. Human Nature (France, 2001). Dirigido por Michel Gondry. Escrito por Charlie Kaufman. Com Patricia Arquette, Rhys Ifans, Tim Robbins, Ken Magee, Sy Richardson, David Warshofsky, Hilary Duff, Stanley DeSantis, Peter Dinklage. imdb