Nerve: Um Jogo Sem Regras

Black Mirror é uma série que realiza com sucesso uma crítica à tecnologia atual e em um futuro próximo (e talvez distópico). E ela faz isso em episódios de uma hora, que de acordo com alguns espectadores da Netflix, é “tempo demais para contar uma história tão simples”. Pois bem. Nerve vem à tona como uma versão para jovens em um longa metragem que tem tempo demais de tela para uma história boba e imprevisível porque, no fundo, ninguém se importa com o destino de seus rasos personagens.

Utilizando cortes rápidos, uma trilha sonora enérgica e uma fluidez admirável na direção, o filme escrito a duas mãos conta a história de um jogo de internet que não pode ser parado enquanto tiver observadores o suficiente e que consiste basicamente em uma versão hardcore de “truth or dare” com apenas “dare” e seguidores dos poucos corajosos que são movidos pela fama e pelo dinheiro fácil que ganham ao completar cada nova prova escolhida pelos seus próprios admiradores. As provas variam de “beijar um desconhecido” a “correr em uma moto a 90km por hora de olhos vendados”, piorando cada vez um pouco a cada nova fase.

O motivo que fez a linda-mas-sem-sal Vee (Emma Roberts, de American Horror Story) entrar no jogo foi a provocação de sua melhor amiga, que dizia que ela nunca fazia nada de diferente. Isso é um chamariz para qualquer adolescente com seus hormônios à flor da pele, e basicamente é apenas isso que você precisa saber sobre os personagens, que passam por pequenas crises de adolescentes, com a diferença de estarem em um jogo de vida e morte.

O que fascina os jovens, e que deve fascinar os espectadores, é o jogo. Pois ele está a um fio de ser criado por algum maluco em um mundo onde a internet é tão rápida que as pessoas podem acompanhar vídeos feitos por celulares em tempo real. Em uma arena que é a cidade de Nova Iorque, jovens participam desses desafios em um ritmo crescente, e o filme nos coloca no ponto de vista de Vee e seu interesse romântico à força Ian (Dave Franco). A forma com que a narrativa do jogo é criada aparentemente do caos força nosso senso de realidade, mas ao mesmo tempo o poder que a pressão social de um simples jogo parece fazer nesse jovens é sintomático e preocupante, e mesmo que saibamos que isso jamais existiria no mundo real, o medo de comportamentos semelhantes assusta.

Porém, nenhuma história de terror/ação/thriller onde os personagens correm sérios perigos tem chance de sucesso se o que acontece a eles não for crível e, o principal, não torcermos pela sua vitória. Aqui não se trata de torcer por um personagem carismático, pois Vee é apenas ingênua no começo, mas aos poucos se torna tão maliciosa quanto sua melhor amiga. E, do lado da história, o motivo que os faz não conseguir parar até o final é bobo e completamente irreal, colocando toda a trama por água abaixo.

Ainda assim, há algo de belo nas panorâmicas noturnas de uma noite em Nova Iorque quando a juventude foi à loucura. O motivo? Alguns jovens se dispuseram a arriscar sua estima, seu senso de ridículo e suas vidas a troco de “likes”. Talvez o mais assustador é que, quando paramos com calma para pensar, percebemos que esse mundo já existe.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-11-17 imdb