Ninfomaníaca Vols 1 e 2

Um estudo de personagem puro. A revisão de ambos os filmes, estreando agora na Netflix brasileira, revela que não há de fato uma história amarrada, onde uma coisa leva a outra. A única coisa que move Joe são as coincidências e as variações de sua libido. A curiosidade do filme é mais sobre esse universo, e menos sobre suas memórias.

Dessa forma, Lars Von Trier escancara isso para o público transformando o filme em uma alegoria que permite reflexões e analogias nunca antes tentadas de maneira tão lúdica quando se fala de apetite sexual e comportamento humano. Ela encontra o ser mais assexuado possível, e juntos vão apresentar não apenas a história de Joe, mas de toda mulher que decidiu ser diferente do esperado. Claro, em diferentes níveis. Mas, falando em analogias, talvez eu esteja sendo ingênuo demais. Afinal de contas, é perfeitamente possível que alguém já tenha feito uma conexão entre as portas com sensor automático na entrada dos prédios com uma vagina ultra-sensível. Mas, como tudo no Cinema, depende de contexto. E o contexto aqui é sexualidade, em todas suas nuanças.

A versão mutilada disponível na Netflix possui no início de cada volume cortes sem sentido nos diálogos que traem a fluidez de sua história. Há um letreiro que deixa claro que o diretor não teve nada a ver com isso. Depois desse início embaraçoso, não há muitos outros confusos o suficiente para serem notados. No seu lugar, cortes fabulosos que recriam a mística da ninfomaníaca de maneira profética, religiosa, sagrada. Os comentários de seu amigo inesperado nunca vêem com uma conotação sexual distinguível, mas o simples fato de estarmos na casa de um assexuado mostra que em qualquer criação humana, seja pescaria ou religião, sempre há o elemento sexual.

Em determinado momento Joe fala que a última digressão de seu amigo foi a mais fraca. No fundo, de todas as digressões linguísticas que o diretor aplica em seus filmes, talvez essa seja a mais fraca. Com quatro horas de duração, sobrou alguma gordura desnecessária para seus objetivos.

No final, um discurso feminista que faz todo sentido, seguido da lembrança de que tudo o que vimos foi um ser humano tentando achar seu lugar na sociedade. Infelizmente, com todas as mulheres temendo que seus maridos sejam roubados e com todos os homens. Que maneira triste, mesquinha e… verdadeira, de enxergar a sociedade.

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★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-06 imdb