Ninfomaníaca Vol. 1

Antes mesmo de ser anunciado, a ideia de um filme sobre uma ninfomaníaca dirigido pelo pessimista Lars von Trier (Dogville, Melancolia, Dançando no Escuro) já fazia todo o sentido: experimentando uma vida vazia de significado, mas cheia de sexo por todos os lados, a história de Joe (Charlotte Gainsbourg) atravessa todos os períodos da sua vida e aparentemente não há qualquer resquício nela de prazer, paixão ou saudade. Tendo que ser dividido em volumes por causa de sua longa duração, a experiência ainda recebe toques metalinguísticos, pois “Ninfomaníaca, Volume I” é uma experiência tão incompleta e inacabada quanto a sintomática personagem, vivida por Charlotte Gainsbourg de maneira amargurada ao calcular todo o mal que já fez para o mundo.

Por outro lado, o lado mais inesperado do filme é seu humor, e me admirei por estar rindo em um filme desse diretor. Conseguindo equilibrar a narrativa através de episódios bem definidos e tendo como interlocutor um homem culto (Stellan Skarsgård) e dotado de conhecimentos dos mais diversos que permitem que ele faça inúmeras analogias entre sexo e atividades aparentemente sem relação (como pescaria), o roteiro, também assinado por von Trier, pula entre períodos da vida de Joe com extrema facilidade e leveza, tornando a nossa percepção de sua vida menos impactante do que poderíamos esperar.

No entanto, isso são apenas conjecturas de um trabalho ainda a ser apreciado em sua plenitude. Não sabemos se o futuro de Joe nos reserva mais luzes ou trevas. Tudo que sabemos é que ela foi encontrada inerte e machucada no chão duro do inverno. Se haverá ou não primavera, essa é uma surpresa que aguardo ansiosamente.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-06 imdb