Ninfomaníaca Volume 2

Podemos chamar Joe de vadia, vulgar ou de qualquer outro adjetivo que achemos o pior em uma pessoa. No entanto, uma coisa que Lars von Trier te impede de fazer durante todas as seis horas de projeção de Ninfomaníaca é permitir que, do topo de nossa suposta moral, a chamemos de vítima. E é isso que autentica essa personagem como uma dura crítica ao nosso modo de pensar a respeito de sexo e da relação entre seus praticantes. Joe, interpretada de maneira dura e auto-reflexiva pela impassível Charlotte Gainsbourg, é que pode, do topo de sua experiência no assunto, julgar a hipocrisia humana.

O segundo e último volume lançado aqui no Brasil — não sei por que um filme como esse teria um viés comercial na cabeça desses distribuidores, mas enfim… — perde um pouco sua introdução quase cômica para começar a pesar as decisões de Joe acerca de sua vida. Nem as divertidas analogias de seu ouvinte fazem mais efeito, senão o de nos fazer lembrar que Von Trier enquanto narra analisa seu próprio processo, o que poderia ter o prejuízo de nos fazer sair do filme se não fosse a câmera documental e as transições que fluem sem pudor entre diálogos e “ação” (além de já nos acostumarmos com essa dinâmica).

No primeiro texto sobre o primeiro volume havia dito que um projeto como esse fazia todo o sentido para o diretor pessimista que é Von Trier olhar o mundo pela ótica de alguém que não tem pudores de dizer qualquer coisa. Vemos isso claramente nas discussões políticas e sociais dessa parte final, e me agrada em muito a visão de Joe pela doença atual do politicamente correto, onde para muitos poderia ser chocante. A vida não te ensina que colocar rótulos mais leves no que as pessoas são torna a vida mais leve. Ninfomaníaca, já em seu próprio título, nos ensina isso pelo óbvio: o sexo não deixa de ser sexo porque é mostrado pela nossa sociedade como algo deturpado e digno de culpa. O sexo apenas é. Joe me ensinou isso. E, sim: ela é uma ninfomaníaca.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-06 imdb