Ninguém Deseja a Noite

2017/06/05

Juliette Binoche se transforma completamente em uma americana aristocrata (vinda da França, até pelo nome) e que sai em busca de seu marido, um aventureiro que deseja mais que tudo ser o primeiro a atingir o Polo Norte e fincar uma bandeira. Ela vai a ajuda dos guias para o norte do Canadá, e o que encontra lá com certeza não era o que esperava.

Baseado em fatos reais (mas sem dar detalhes de qual história estamos vendo, o que cheira manipulação), acompanhamos um filme que se dedica dar o peso real ao desafio de viver no gelo absoluto, seja como esquimó ou como “povo civilizado”. Estamos no comecinho do século 20, e a diretora Isabel Coixet (Fatal), auxiliada pelo roteirista Miguel Barros e, claro, uma irreconhecível Juliette Binoche, criam uma persona frágil e ao mesmo tempo petulante, teimosa, elitista, preconceituosa e… que vira nossos olhos e sentimentos naquela terra estranha. A única personagem à altura é a atriz Rinko Kikuchi (Babel), sempre surpreendente e que aqui faz a jovem esquimó Allaka, e que já havia feito a ótimo Kumiko em “Caçadora de Tesouros”. A dinâmica entre as duas é irregular e por isso funciona como uma pena para a questão levantada pelo filme, das diferentes visões de mundo.

É claro que chega uma hora que tudo parece uma versão feminina de Dança com Lobos, mas sem a sutileza, e com um certo pelo exagero nas falas. Uma esquimó não falaria tão bem assim tantas vezes. Mas o que é irrepreensível são as virtudes estéticas e técnicas do filme, que inserem o espectador no gelo ártico com muita propriedade. Com o design de som e os ventos, ou o próprio isolamento das montanhas, ou a escassez de recursos, o gelo quebradiço… e até a decupagem, que coloca Kikuchi e Binoche em planos cada vez mais estreiros, conforme o inverno se aproxima. É como conseguir fazer o espectador sentir frio de dentro de um filme.

Ninguém Deseja a Noite cria a profundidade de seu drama para discutir questões mais profundas ainda, como nossos costumes culturais e as diferentes formas de enxergar a realidade. Não chega a ser tocante, e possui um final um tanto desonesto, mas não poupa ninguém das consequências das decisões dessas duas mulheres. Um filme para ver e refletir.

★★★★☆ Título original: Nadie quiere la noche. País de origem: Spain. Ano 2015. Direção: Isabel Coixet. Roteiro: Miguel Barros. Elenco: Juliette Binoche (Josephine). Rinko Kikuchi (Allaka). Gabriel Byrne (Bram). Orto Ignatiussen. Matt Salinger (Captain Spalding). Ben Temple (Frand). Reed Brody (Lucius). Alberto Jo Lee (Odaq). Clarence Smith. Edição: Elena Ruiz. Fotografia: Jean-Claude Larrieu. Trilha Sonora: Lucas Vidal. Duração: 104. Gênero: Drama. Estreia no Brasil: 1 December 2016. Tags: netflix

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