Ninguém Deseja a Noite

Juliette Binoche se transforma completamente em uma americana aristocrata (vinda da França, até pelo nome) e que sai em busca de seu marido, um aventureiro que deseja mais que tudo ser o primeiro a atingir o Polo Norte e fincar uma bandeira. Ela vai a ajuda dos guias para o norte do Canadá, e o que encontra lá com certeza não era o que esperava.

Baseado em fatos reais (mas sem dar detalhes de qual história estamos vendo, o que cheira manipulação), acompanhamos um filme que se dedica dar o peso real ao desafio de viver no gelo absoluto, seja como esquimó ou como “povo civilizado”. Estamos no comecinho do século 20, e a diretora Isabel Coixet (Fatal), auxiliada pelo roteirista Miguel Barros e, claro, uma irreconhecível Juliette Binoche, criam uma persona frágil e ao mesmo tempo petulante, teimosa, elitista, preconceituosa e… que vira nossos olhos e sentimentos naquela terra estranha. A única personagem à altura é a atriz Rinko Kikuchi (Babel), sempre surpreendente e que aqui faz a jovem esquimó Allaka, e que já havia feito a ótimo Kumiko em “Caçadora de Tesouros”. A dinâmica entre as duas é irregular e por isso funciona como uma pena para a questão levantada pelo filme, das diferentes visões de mundo.

É claro que chega uma hora que tudo parece uma versão feminina de Dança com Lobos, mas sem a sutileza, e com um certo pelo exagero nas falas. Uma esquimó não falaria tão bem assim tantas vezes. Mas o que é irrepreensível são as virtudes estéticas e técnicas do filme, que inserem o espectador no gelo ártico com muita propriedade. Com o design de som e os ventos, ou o próprio isolamento das montanhas, ou a escassez de recursos, o gelo quebradiço… e até a decupagem, que coloca Kikuchi e Binoche em planos cada vez mais estreiros, conforme o inverno se aproxima. É como conseguir fazer o espectador sentir frio de dentro de um filme.

Ninguém Deseja a Noite cria a profundidade de seu drama para discutir questões mais profundas ainda, como nossos costumes culturais e as diferentes formas de enxergar a realidade. Não chega a ser tocante, e possui um final um tanto desonesto, mas não poupa ninguém das consequências das decisões dessas duas mulheres. Um filme para ver e refletir.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-06-05. Ninguém Deseja a Noite. Nadie quiere la noche (Spain, 2015). Dirigido por Isabel Coixet. Escrito por Miguel Barros. Com Juliette Binoche (Josephine), Rinko Kikuchi (Allaka), Gabriel Byrne (Bram), Orto Ignatiussen, Matt Salinger (Captain Spalding), Ben Temple (Frand), Reed Brody (Lucius), Alberto Jo Lee (Odaq), Clarence Smith. imdb