Nise: O Coração da Loucura

May 29, 2016

Imagens

Glória Pires desperdiçada em Tempo de Despertar brasileiro. Acompanhamos o fascinante tratamento psiquiátrico conduzido por Nise da Silveira, uma personagem da vida real, aos pacientes do instituto psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro de 1940. As mulheres independentes não são bem vistas, e Nise se coloca entre a ala masculina de doutores explorando novos métodos de lobotomia de pacientes (como se os estivessem curando) enquanto Nise tenta uma abordagem mais Jungiana, voltada para entender o inconsciente de seus pacientes, que carinhosa ou respeitosamente, insiste em chamar de clientes (embora não durante todo o tempo, falha de roteiro). Acima das divergências científicas, o que está em jogo é um tratamento mais humano e que tente de fato melhorar a vida dessas pessoas isoladas do mundo por distúrbios mentais.

Nesse sentido, “Nise” é um passeio delicioso pelas possibilidades da mente e da comunicação humanas, enquanto de quebra nos entrega um sopro de esperança em uma área dominada por médicos mais interessados em se livrar do inconveniente que seus pacientes geram do que de fato entender o que acontece com os chamados “malucos” daquela época.

No entanto, o filme tenta mostrar o milagre sem mostrar o santo. Dessa forma, a figura de Nise soa apagada, e é difícil entender seu valor, já que o tratamento dos pacientes pela pintura parece muito mais obra do acaso do que a intenção bem definida e bem intencionada da figura da doutora. Sabemos que a ciência caminha muito pela especulação e experimentos ousados, assim como acompanhamos a curiosidade e empenhos científicos de Robin Williams para entender as causas da paralisia de seu paciente interpretado por Robert de Niro em Tempo de Despertar, já citado. Porém, em Nise não há espaço para esse estudo fascinante dos métodos da ciência, já que o mesmo é ocupado por um panfleto anti-reacionário bobo que coloca todos os psiquiatras do instituto como vilões míopes – e reacionários! – em contrapartida com a progressista e moderna Nise. Em determinado momento, um deles a “acusa” de ser comunista, mas só pesquisando a bibliografia da mulher da vida real para entender que ela já foi presa por estar em posse de livros dessa ideologia.

Por isso e pelo melodrama barato, que tenta explorar os sentimentos do espectador usando uma trilha sonora para fazer chorar a todo momento, Nise acaba ficando aquém da sua história extraordinária. Não é algo inusitado. O Cinema brasileiro contemporâneo continua infectado pelos berros autoritários de um ufanismo socialista que ofusca histórias muito maiores que o bobinho jogo político de produções que busca dinheiro público a todo custo. Uma pena. Nise, como conceito, flerta seriamente como um dos melhores exemplos de “filme baseado em história real”, com uma história inspiradora. Graças ao efeito “Que Horas Você Volta”, apesar de como Cinema ser visivelmente superior, vira apenas uma tentativa imbecil de fazer valer as ideias erradas em comparação com pessoas mais erradas ainda.

Wanderley Caloni, 2016-05-29. Nise: O Coração da Loucura. Nise: O Coração da Loucura (Brazil, 2015). Dirigido por Roberto Berliner. Escrito por Flávia Castro, Mauricio Lissovski, Maria Camargo, Chris Alcazar, Patrícia Andrade, Leonardo Rocha, Roberto Berliner. Com Julio Adrião, Flavio Bauraqui, Fabrício Boliveira, Fernando Eiras, Luciana Fregolente, Charles Fricks, Georgiana Góes, Claudio Jaborandy, Zécarlos Machado. IMDB.