No Limite do Amanhã

Jun 10, 2014

Imagens

Filme futurista que faz uma homenagem a Feitiço do Tempo (de Harold Ramis com Bill Murray), mas não aproveita suas idas e vindas pelo mesmo caminho percorrido pelo protagonista, que precisa morrer várias vezes, mas acaba morrendo praticamente da mesma maneira (isso lembra um pouco nossa geração vídeogame, não?). O ponto mais negativo obviamente fica para o final, pois este é um filme onde Tom Cruise (Oblivion) é o herói, e heróis como ele e Will Smith muitas vezes se dão ao luxo de não trocar suas personas midiáticas por personagens mais reais. Ou podemos dizer que essa é uma crítica pontual ao espírito vídeo-game dessa geração, acostumado com desafios fáceis e pouco desafiadores.

Esqueçamos as atuações – exceto a de Bill Paxton, excelente – e foquemos na técnica. A edição de James Herbert (colaborador habitual do cleptomaníaco Guy Ritchie) aliada à direção competente de Doug Liman (a trilogia Bourne) compensam enormemente um roteiro desnecessariamente prolixo escrito por não sei quantas pessoas. Há momentos inspirados, mas não estão na parte final. O núcleo desse ótimo filme está em sua narrativa dinâmica, que totalmente diferente da linguagem usada em Feitiço do Tempo se aproveita da agilidade atual do espectador e recorta cenas repetidas com uma velocidade inimaginável algumas décadas atrás. Com isso, o filme cria uma forma empolgante de avançar na história, onde não sabemos exatamente quanto tempo se passou (para o protagonista), mas sabemos que foi muito, já que ele misteriosamente sabe de diversos detalhes íntimos de várias pessoas que sequer possuem tempo em tela (uma das falhas mais graves no roteiro é não explicar a origem desses insights).

Conseguindo de fato transformar toda a experiência em uma espécie de vídeogame apenas acompanhamos Cage (Cruise) aprendendo a lutar em uma guerra e a dar valor aos soldados que lutaram em seu lugar (Cage começa no filme mais como um publicitário do que um militar), o que é um arco razoável. A tensão aumenta um pouco mais para o final, quando um acontecimento já previsto ocorre, mas sofre com a falta de comprometimento com suas premissas básicas. Viagem no tempo é um tema fascinante e pode dar muita liberdade narrativa, mas uma vez que suas regras são lançadas, fica difícil se livrar da maldição auto-lançada.

Wanderley Caloni, 2014-06-10. No Limite do Amanhã. Edge of Tomorrow (USA, 2014). Dirigido por Doug Liman. Escrito por Christopher McQuarrie, Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, Hiroshi Sakurazaka. Com Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton, Jonas Armstrong, Tony Way, Kick Gurry, Franz Drameh, Dragomir Mrsic. IMDB.