Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Uma comédia romântica se faz pelos seus personagens, como eles interagem, o que fala, quais seus dramas, suas origens, seu crescimento e, principalmente, como se relacionam. Quanto mais reais mais eficiente se torna o filme. Portanto, quando Woody Allen realiza Annie Hall como uma homenagem a Diane Keaton e seu longo relacionamento juntos, a ênfase com que ele a coloca, e se coloca, em um processo de descobrir o que deu errado no romance entre eles é tão grande que a linguagem ultrapassa os limites dos diálogos e temos uma meta-exposição tão “Woody Allen”, com a quebra da quarta parede e X outros artifícios, como visitas ao passado comentadas, e em contrapartida, uma participação tão “Diany Keaton” na leveza e naturalidade com que as histórias vão definindo essas duas pessoas, suas manias, suas neuroses e ambições, que a arte quebra sua quarta parede com a vida real e quando percebemos estamos assistindo a uma carta de amor entre um artista autêntico em suas discussões filosóficas sendo entregue publicamente para a pessoa com quem ele parece ter uma dívida de vida, e para quem parece estar pedindo desculpas por segurar seu enorme talento em sua mesquinharia e egocentrismo típicos desse judeu bem-humorado em seu próprio pessimismo.

O filme é uma longa exposição do relacionamento entre o comediante Alvy Singer (Allen) e a doce e bela Annie Hall (Keaton) depois dele ter acabado. Vemos no início Singer olhando para nós se questionando o que deu errado, no que se seguem um enorme flashback que não necessariamente segue a linha temporal, mas que consegue fluir, independente da época em que se passaram, quase como um turbilhão de memória que temos quando tentamos lembrar os bons e os maus momentos com uma pessoa que se foi, mas que deixou uma marca indelével em nossa vida. É a tentativa de definição dessa marca que leva Singer a visitar sua infância vivendo na casa dos pais, debaixo de uma montanha russa – as brincadeiras metafóricas de Allen costumam ser bem visuais – além de diferentes relacionamentos que Singer teve antes e depois de Annie. Há piadas obscurecidas pelo seu conteúdo cultural, mas elas não interferem na visão do espectador de que este é um homem erudito o suficiente para se tornar insuportável em suas neuroses e adorável em sua ingenuidade sobre a vida.

Porém, este é um filme sobre Annie, contada sob o ponto de vista dele, e portanto temos Singer como a figura central da história, mas é em sua interação com Annie que a enxergamos como uma pessoa de carne e osso, e é graças à performance naturalista de Diane Keaton que entendemos como ela consegue dizer tudo que precisa ser dito através de seu sorriso ou comentários sarcásticos, ou até mesmo seu senso comum, sempre em sintonia com que os está observando – nós – e que nunca encontra uma forma de sincronizar os nossos pensamentos com a figura problemática de Singer, que impede que ela respire novos ares e siga seu caminho. No entanto, paradoxalmente, é Singer que, por exemplo, convence Annie que ela é uma cantora de talento, ao mesmo tempo que ele parece sabotar seu crescimento nessa área por conta não de medo, carência ou complexo de inferioridade, mas simplesmente pela sua própria persona.

É impossível em “Annie Hall” se desvencilhar do que os personagens fazem e do que eles são, seja no filme ou na vida real. E é por isso que o filme é um exemplo de como uma comédia romântica pode não precisar de muita narrativa, ou quase nenhum conflito, exceto o que se passa sempre em nossas mentes, na mente de qualquer um, que tenta levar uma vida com outra pessoa. A essência de um relacionamento apresentada por alguém obcecado pela morte: uma lição de vida.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-27 imdb