Nós, Eles e Eu

Eis um dos primeiros filmes de um “isentão”. Pelo menos um dos primeiros feito depois que o termo foi cunhado. Um argentino judeu leva 15 anos para editar o documentário de suas memórias gravadas da viagem que fez para a terra prometida quando mais jovem. Talvez tentando achar o equilíbrio perfeito de opiniões a respeito do conflito palestino, acaba se transformando em uma ode à covardia.

E, de fato, em um momento, um palestino comenta: todos os judeus são covardes. E todos os israelenses são judeus.

Esse também é uma ode à ignorância, ou como viver em uma realidade opressiva. Alguns convivem numa boa (“eu amo a guerra, desde que nasci”), outros buscam justificativas (“Deus criou a terra, ele dá para quem quiser”) e críticas demagogas (“quantas crianças Israel já matou hoje?”); poucos buscam a lucidez (“ninguém, vencedor ou perdedor, conseguirá viver nesse clima de medo”).

O caso é que todos possuem uma opinião a respeito, e todos se abrem mais cedo ou mais tarde. A função do diretor aqui é se fingir de isento, mas paulatinamente tecer sua visão pacifista pró-Israel, mas nunca tendenciosa. Se algum crítico apontar isso, obviamente estará errado. Assim como nunca houve um nazista entre a população alemã.

(Pronto, já cumpri a lei de Godwin, necessária nessa discussão. Podemos prosseguir em paz, antes que os judeus se transformem em baratas e fujam por debaixo da porta.)

O filme foi editado em um trabalho magnânimo de pinceladas dos vídeos do diretor em sua viagem quando jovem. Demorou quinze anos para ser feito, mas merece todos os créditos por inserir uma discussão equilibrada sobre o assunto, e usar pessoas comuns para essa tarefa. Ao final, você terá simpatizado com uma ou duas pessoas (no máximo) e lamentado a falta de visão de todo o resto. De uma forma ou de outra, eles estão lá, nós estamos aqui. E daí o título. É uma provocação deliciosa sentir que não fazemos parte dessa discussão que gera dor e sofrimento para milhares de pessoas todos os dias. E elas possuem falta de visão.

É um filme ágil sobre pessoas falando. Pode dar sono em momentos pontuais, mas dificilmente irá tirar o interesse no assunto. Pelo contrário: depois que ele acaba é que começa a discussão, uma de suas melhores virtudes.

E discussão é o que nosso amigo “isentão” evita a todo custo, um “sacrifício” pela busca da verdade. E a verdade, é claro, está no seu filme, nas entrelinhas. Então tá.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-04-30. Nós, Eles e Eu. NEY: Nosotros, ellos y yo (Argentina, 2015). Dirigido por Nicolás Avruj. Escrito por Nicolás Avruj, Alejandro Dujovne, Andrea Kleinman. Com Nur Al Levi, Frieda Geffner, Abu Harbed, Sebastián Muller, Iosef Shai. imdb