Nunca Aos Domingos

Uma comédia aparentemente despretensiosa dos anos 60, grega, com muitos diálogo em inglês, e que vem bem a calhar de assistir nesse momento sócio-econômico onde a terra dos filósofos da lógica perdeu seu último laço com o bom senso. Quando é aberto para votação nacional para decidir se será paga uma dívida internacional adquirida na farra, a cultura de Nunca aos Domingos da vida fácil e do proletariado explorado vem à tona.

No entanto, há algo de podre na constituição desses personagens maniqueístas. O filósofo com seu bloquinho de anotações procurando um sentido de por que o mundo sofre não enxerga a felicidade plena diante do seu grande nariz. A prostituta bela e ousada não entende que sua vida não poderia ser mais recompensadora do que poder tomar um banho no cais acompanhada de homens fortes e brutos, vivendo o presente sem filtros racionais.

Ou será que o filme escolhe brincar com seus argumentos e sentimentos? Quando o Sr. Sem Face faz uma proposta em que “todos ganham”, a ética do pensamento racional dá adeus. Quando Homer e Ilya (ou Ilíada, já que são nomes mais que sugestivos) vão assistir a uma tragédia grega e Homer tenta convencer a prostituta que sua versão inventada não é a real, a desonestidade intelectual em atribuir à lógica e à razão o papel de vilão não atinge o resultado esperado. Fica uma discussão morna, sem cutucar devidamente a ferida da emoção vs a razão.

Ainda assim, Nunca aos Domingos ganha alguns pontos por sua conclusão extremamente coesa, além de flertar bem com sua premissa de que a felicidade é algo subjetivo, mas que pode sim ser ensinada e passada adiante. Não importa o quão cego de emoções você seja.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-08-13. Nunca Aos Domingos. Pote tin Kyriaki (Greece, 1960). Dirigido por Jules Dassin. Escrito por Jules Dassin. Com Melina Mercouri, Jules Dassin, Giorgos Foundas, Titos Vandis, Mitsos Ligizos, Despo Diamantidou, Dimos Starenios, Dimitris Papamichael, Alexis Solomos. imdb