O Abutre

Uma fase estupidamente frutífera de Jake Gyllenhaal, que fez com o diretor Denis Villeneuve em 2013 dois filmes muito interessantes: Os Suspeitos e O Homem Duplicado e que agora faz o seu terceiro papel completamente diferente. Não se poderia dizer diferente de Dan Gilroy, que trabalhou em roteiros de filmes curiosos como Gigantes de Aço, mas que aqui estreia na direção de uma história que ele mesmo escreveu e que ultrapassa o limite do óbvio para se emaranhar em uma discussão acalorada, divertida e abrangente sobre a mídia sensacionalista.

A história gira em torno de Louis Bloom (Gyllenhaal), que costuma roubar peças de metal para revender, mas que procura agora conseguir um emprego para se dedicar. Renegado por ser um ladrão, acaba testemunhando um acidente na estrada e junto dele um cinegrafista amador que, de posso de um assistente e uma van, parece fazer dinheiro vendendo vídeos das atrocidades que ocorrem na cidade para os telejornais locais, que noticiam a desgraça diária pela manhã, quando Louis metódica e rotineiramente rega sua planta e prepara como será seu dia.

O escalada “profissional” de Louis já seria uma curiosidade à parte, pois o sujeito obviamente possui alguns problemas em seu passado que parecem despertar de uma maneira catalisadora através de frases de motivação de escritório (dessas que se acha em livros sobre liderança, gerenciamento de projetos, negócios, etc) que ele sempre tenta encaixar em cada nova situação. Quando contrata seu assistente (Riz Ahmed) esse vira alvo de uma avaliação rigorosa. Podemos dizer a mesma coisa de sua relação com a mulher que compra seus vídeos, Nina (Rene Russo), e um dos jantares mais insensíveis e ainda assim (ou exatamente por isso) precisos que você irá assistir.

No entanto, a escalada de Louis vem acompanhada da escalada no conteúdo dos seus vídeos e como eles são produzidos. Desde o começo abordando a discussão de o quanto as câmeras atrapalham as atividades de socorro às vítimas, esse atrapalhar é visto como uma cadeia que começa nas ruas e só termina nos índices de audiência de uma população obcecada com violência, talvez no pior sentido da palavra. A direção de Dan Gilroy consegue ainda respeitar a inteligência do espectador, e omite propositalmente alguns fatos que são facilmente entendidos (como a ausência do início de uma fita que Louis grava em um bairro nobre), mas ao mesmo tempo escancara algumas situações para que nós mesmos a julguemos (quando ele altera a posição do corpo da vítima para conseguir um melhor enquadramento).

É por isso que a sequência final acaba sendo irretocável do começo ao fim. Não por ela em si, mas pelo que se construiu durante todo o longa. É por isso que a frase de Louis ao seu assistente é acompanhada de um temor pelo espectador. É por isso que a girada de 180 graus do carro de Louis em frente ao acidente soa tão ou mais ameaçador do que os bandidos que eles estavam perseguindo. E, por fim, é por isso que seus resultados tenham mais o teor de crítica do que a fácil vingança a um vilão ou anti-herói que é mais uma metáfora do que um culpado em que se possa apontar o dedo. Tal qual os apresentadores de telejornais de violência explícita.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-04-30. O Abutre. Nightcrawler (USA, 2014). Dirigido por Dan Gilroy. Escrito por Dan Gilroy. Com Jake Gyllenhaal, Michael Papajohn, Marco Rodríguez, Bill Paxton, James Huang, Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia. imdb