O Aluno

Este é daqueles filmes bonitinhos, com lição de moral, ou lição de vida, que tenta aumentar a trilha sonora solene e emocionante sempre que pode, além de colocar lágrimas nos rostos dos personagens para induzir o espectador ao choro fácil. Choro fácil este que não vem, já que seus personagens não são assim tão carismáticos, e o protagonista, apesar da história de vida sofrida, parece não possuir condições de exprimi-la de uma maneira civilizada.

Mas o que pode ser um problema para um filme do gênero poderia muito bem ser uma defesa mais que inspirada no aspecto tribal da cultura africana. O filme trata disso, de como as tribos, apesar de rivais, viviam aparentemente em uma harmonia – ainda que separados e com rivalidade – antes do homem branco chegar, representado pela Rainha da Inglaterra, e tocar o terror para conquistar e unificar. Fica a dúvida se essa desunião dos povos já existia ou foi mera estratégia do Império Britânico de conseguir aliados locais e chegar rapidamente à vitória.

Começando como uma fábula lúdica, onde um velho tenta entrar em uma escola aberta para educação primária, o filme já começa demonstrando a estupidez dos governantes, que anunciaram orgulhosos “educação para todos” na mídia – representada aqui por um locutor de rádio alterado e bem-humorado – ignorando que não cabem 200 crianças em 50 cadeira em uma sala de aula, e que “todos” inclui… bem, todo mundo disposto a aprender.

Então o roteiro simplista de Ann Peacock demonstra como é desproporcionalmente violenta e sem sentido a revolta geral, não só da população, pais das crianças matriculadas, como do alto escalão responsável por coordenar o investimento em marketing… quer dizer, em educação, repetindo sempre a mesma lengalenga de qualquer governo populista: as crianças são o futuro da nação.

De fato são. Mas qual futuro esperar de crianças que sequer conhecem o seu passado, de seus descendentes? Sem saber de onde veio o sangue que pavimentou as ruas da nova nação fundada à força, vemos como o populismo já alcança níveis absurdos em meio a tanta desigualdade.

E é aí que entra o velho: Maruge.

Interpretado de uma maneira vazia pelo simpático liver Litondo, Maruge não consegue despertar simpatia por si só, mas apenas através de sua história. O que se torna um paradoxo, já que é a mesma pessoa que viveu os flashbacks que acompanhamos durante o filme, inclusive um trauma fortíssimo que fez com que ele não apenas ficasse com medo de apontadores de lápis, mas sem ouvir direito. Porém, Maruge não é alguém de espírito livre que decidiu aprender coisas novas no fim da vida. É um velho teimoso que quer provar um ponto.

Ponto esse desperdiçado pelo longa ao relativizar os esforços do velho para aprender a ler no último minuto, e banalizado novamente pelo roteiro de Peacock, que parece enxergar um drama para família com estrutura básica onde reside algo muito mais violento, profundo e politizado.

Este não é um filme para família, mas parece ter sido escrito e dirigido para tal. Mas não se pode ensinar as pessoas dessa forma, e nem entrentê-las. Se elas ficam revoltadas pela presença de um velhinho na sala de aula, quanto mais estupidez você acha que encontra nas massas?

Claramente com ideais pseudo-liberais, O Aluno se sabota ao tentar simplificar um tema, e embora tenha um estilo competente, traz uma história fraca como pano de fundo. Fica a sensação de que poderia ser melhor… mas na verdade acho que não.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-12-09 imdb