O Aluno

2016/12/09

Este é daqueles filmes bonitinhos, com lição de moral, ou lição de vida, que tenta aumentar a trilha sonora solene e emocionante sempre que pode, além de colocar lágrimas nos rostos dos personagens para induzir o espectador ao choro fácil. Choro fácil este que não vem, já que seus personagens não são assim tão carismáticos, e o protagonista, apesar da história de vida sofrida, parece não possuir condições de exprimi-la de uma maneira civilizada.

Mas o que pode ser um problema para um filme do gênero poderia muito bem ser uma defesa mais que inspirada no aspecto tribal da cultura africana. O filme trata disso, de como as tribos, apesar de rivais, viviam aparentemente em uma harmonia – ainda que separados e com rivalidade – antes do homem branco chegar, representado pela Rainha da Inglaterra, e tocar o terror para conquistar e unificar. Fica a dúvida se essa desunião dos povos já existia ou foi mera estratégia do Império Britânico de conseguir aliados locais e chegar rapidamente à vitória.

Começando como uma fábula lúdica, onde um velho tenta entrar em uma escola aberta para educação primária, o filme já começa demonstrando a estupidez dos governantes, que anunciaram orgulhosos “educação para todos” na mídia – representada aqui por um locutor de rádio alterado e bem-humorado – ignorando que não cabem 200 crianças em 50 cadeira em uma sala de aula, e que “todos” inclui… bem, todo mundo disposto a aprender.

Então o roteiro simplista de Ann Peacock demonstra como é desproporcionalmente violenta e sem sentido a revolta geral, não só da população, pais das crianças matriculadas, como do alto escalão responsável por coordenar o investimento em marketing… quer dizer, em educação, repetindo sempre a mesma lengalenga de qualquer governo populista: as crianças são o futuro da nação.

De fato são. Mas qual futuro esperar de crianças que sequer conhecem o seu passado, de seus descendentes? Sem saber de onde veio o sangue que pavimentou as ruas da nova nação fundada à força, vemos como o populismo já alcança níveis absurdos em meio a tanta desigualdade.

E é aí que entra o velho: Maruge.

Interpretado de uma maneira vazia pelo simpático liver Litondo, Maruge não consegue despertar simpatia por si só, mas apenas através de sua história. O que se torna um paradoxo, já que é a mesma pessoa que viveu os flashbacks que acompanhamos durante o filme, inclusive um trauma fortíssimo que fez com que ele não apenas ficasse com medo de apontadores de lápis, mas sem ouvir direito. Porém, Maruge não é alguém de espírito livre que decidiu aprender coisas novas no fim da vida. É um velho teimoso que quer provar um ponto.

Ponto esse desperdiçado pelo longa ao relativizar os esforços do velho para aprender a ler no último minuto, e banalizado novamente pelo roteiro de Peacock, que parece enxergar um drama para família com estrutura básica onde reside algo muito mais violento, profundo e politizado.

Este não é um filme para família, mas parece ter sido escrito e dirigido para tal. Mas não se pode ensinar as pessoas dessa forma, e nem entrentê-las. Se elas ficam revoltadas pela presença de um velhinho na sala de aula, quanto mais estupidez você acha que encontra nas massas?

Claramente com ideais pseudo-liberais, O Aluno se sabota ao tentar simplificar um tema, e embora tenha um estilo competente, traz uma história fraca como pano de fundo. Fica a sensação de que poderia ser melhor… mas na verdade acho que não.

★★★☆☆ Título original: The First Grader. País de origem: UK. Ano 2010. Direção: Justin Chadwick. Roteiro: Ann Peacock. Elenco: Naomie Harris (Jane Obinchu). Oliver Litondo (Kimani Ng'ang'a Maruge). Tony Kgoroge (Charles Obinchu). Alfred Munyua (Teacher Alfred). Shoki Mokgapa (Teacher Elizabeth). Vusi Kunene (Mr. Kipruto). Agnes Simaloi (Agnes). Kamau Mbaya (Kamau Chege). Emily Njoki (Young Maruge's Wife). Edição: Paul Knight. Fotografia: Rob Hardy. Trilha Sonora: Alex Heffes. Duração: 103. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Biography. Tags: netflix

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