O Beijo da Borboleta

O Beijo da Borboleta é um filme com ares de independente, e o que comprova isso é sua trilha sonora. Nenhuma produção usaria músicas tão manjadas, tão fáceis e tão perfeitas para cada momento da história que se abre em torno de duas garotas. As músicas constroem momentos de videoclipe para duas personagens reais. O resultado só pode ser traduzido, talvez, como tenso.

Amanda Plummer (a garota do começo de Pulp Fiction) se desfaz de todo o pudor moral e psicológico para viver com todas suas forças a impulsiva, energética, sensual e faladeira Eunice. A cor do seu cabelo, dos seus olhos se completam com seu sorriso e seus lábios se mexendo. Sua capa verde e sua baixa estatura nos faz confundi-la com um gnomo, ou uma imagem idílica de alguma figura irlandesa. O inglês falado aqui não é simples, é regional, e essa escolha complementa o aspecto independente de sua trajetória.

E “independente” é a palavra-chave, o caminho correto a se seguir, como cada nova cena do diretor Michael Winterbottom comprova. Eunice é a garota errante na estrada procurando sua amada Judith de posto em posto. Acaba encontrando Miriam (Saskia Reeves), que logo se apaixona. Miriam é a submissa que pretende aprender com sua mestre. Nos encantamos com a capacidade da garota de mudar sua percepção do mundo apenas por Eunice. Por que digo isso? Pelo simples fato de Eunice matar as pessoas, e não conseguir parar de fazer isso. Miriam a ajuda, vira sua cúmplice, e viajam sem destino no melhor estilo road movie, que é o sub-gênero que o filme esperava seguir desde o princípio.

E, mais uma vez, o sub-gênero correto. Não nos importamos com o andar da história, o que vai acontecer. Desde que aconteça. E perto de Eunice as coisas sempre acontecem, sempre muito rápido e muito intenso.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-03-25 imdb