O Bom Dinossauro

É uma satisfação ver que a Pixar continua com sua vontade de arriscar de vez em quando, e possivelmente possui os desenhistas mais ambiciosos do mercado. O Bom Dinossauro é um trabalho estético e artístico admirável, que causa estranheza em alguns momentos, mas em outros faz valer totalmente a pena.

Contando uma história simples, onde há 65 milhões de anos um asteróide NÃO bateu em nosso planeta, aqui os dinossauros falam e são agricultores pacatos, e os “humanos” ou humanoides ainda são criaturas primitivas que andam nas quatro “patas”. Um dos dinossauros, Arlo (Jack McGraw/Raymond Ochoa), nasceu diferente, com suas pernas bambas, e não consegue ajudar muito a família, pois tem medo até das galinhas que alimenta todos os dias. Ao perder seu pai, as coisas pioram na fazenda, e ao se perder, pioram ainda mais. É quando ele conhece Spot (Jack Bright), um garoto humano que vira seu mascote de estimação.

Apresentando diferentes cenários, personagens e situações em uma espécie de “road-movie” exótico, o roteiro simples desenvolvido por sete pessoas praticamente não exige diálogos, embora eles estejam lá para os espectadores mais jovens, e para mostrar a inversão dos valores, quando os dinossauros são mais evoluídos que os humanos. E como um Avatar para crianças, apresenta diferentes espécies que juntas formam um mosaico pré-histórico regado com músicas de country (parece que os idealizadores do projeto também comeram da frutinha que gera alucinações).

No entanto, nem tudo é inovação. Se inspirando levemente em O Rei Leão, o uso mais uma vez de um trio de abutres, quer dizer, pterodátilos, soa repetitivo demais, e até desnecessário. No entanto, a participação especial de três “T-Rexes” é um ponto alto, além do próprio cenário contribuir para o maravilhamento espontâneo que surge ao observar uma natureza tão real que chega a parecer real (se não for).

Outros detalhes, mas esses incomodam um pouco, é a escolha pitoresca de uma cobra com patas cuidando de um fruto inacessível, além de uma outra família de humanos que difere a ponto de parecer outra espécie, mas nem tanto. A impressão que fica é que por algum motivo os produtores parecem tentados a não ofender alguns religiosos, mas sem coragem também para assumir que tenta fazer um “bem bolado”, onde evolução e criação dão as mãos.

Entregando uma conclusão satisfatória, com mais um momento Disney de fazer chorar (mas esse plenamente justificado), O Bom Dinossauro erra em pouquíssimos pontos e acerta na média. Uma diversão não tão boa para crianças pequenas, mas interessante para jovens e imperdível para adultos mais curiosos.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-09 imdb